4 Condenados pela Inquisição provenientes do Brasil Colonial que rendem uma adaptação cinematográfica

História em Rede
8 min readJul 24, 2019

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No final de 2018, a célebre história referente ao moleiro italiano Domenico Scandella, conhecido como Menocchio, foi transformada em obra cinematográfica. O filme de Alberto Fasulo deu vida ao personagem brilhantemente analisado pelo historiador Carlo Ginzburg no livro “O Queijo e os Vermes”, um clássico da Micro-História. Menocchio, que acabaria condenado pela Inquisição, foi acusado de heresia em virtude de suas concepções religiosas e cosmogônicas insólitas, ao ponto de comparar a origem do universo com o processo de putrefação na produção do queijo, daí o título do livro. No entanto, além de revelar os meandros da perseguição inquisitorial, Ginzburg se vale da trajetória deste moleiro para discutir a cultura popular — mais especificamente a camponesa, eivada por reminiscências pagãs — e sua devida relação com a cultura letrada, evidenciando as surpreendentes trocas entre elas. Leitor do Decamerão e do Alcorão, crítico da Igreja, mas detentor de uma religiosidade veemente, Menocchio expressa como poucos o contexto europeu no início da Idade Moderna, marcado tanto pela difusão da imprensa quanto pelos questionamentos à hegemonia católica advindos da Reforma Protestante. Emblemática, a biografia deste sujeito é realmente digna de um filme.

Este, porém, não é o único indivíduo processado pela Inquisição que rende um longa-metragem espetacular. Fartamente detalhadas por conta da riqueza documental preservada nos arquivos eclesiásticos, as vidas de vítimas do Santo Ofício tendem a ser esclarecedoras, fornecendo dados importantes sobre o cotidiano de uma época. Mais do que isso, as trajetórias em questão são fontes indispensáveis para a compreensão de visões de mundo reprovadas pela sociedade dominante, contando ainda com boas doses de drama, ideais para o cinema. No caso do Brasil colonial, não são poucos os réus da Inquisição que rendem excelentes histórias a serem projetadas nas telonas. É bem verdade que este ainda não é um tema devidamente explorado pelo cinema brasileiro. Dentre os raríssimos filmes que abordam o assunto está o longa “O Judeu”, que conta o caso de Antônio José da Silva, um artista nascido no Rio de Janeiro setecentista e que foi denunciado à Inquisição por sua origem judaica. A produção do filme, lançado em 1995, foi conturbada, dividindo opiniões da crítica. A película teve, ao menos, o mérito de introduzir o tema. Ainda assim, o grande potencial destas biografias não chegou a ser percebido.

Graças à emergência de diferentes estudos historiográficos sobre a perseguição inquisitorial na América portuguesa nos últimos tempos, porém, a Sétima Arte já conta com roteiros esboçados. Basta tirar do papel. Levando isso em conta, selecionamos quatro réus da Inquisição provenientes do Brasil que renderiam adaptações cinematográficas incríveis. Os sujeitos escolhidos, ao exemplo de Menocchio, foram alvos de livros que analisaram especificamente as suas vidas e conectaram estas pessoas ao contexto em que viveram. Ao mesmo tempo, priorizamos trajetórias ricamente detalhadas, ideais para a conversão. Atentamos também para a relevância destas histórias quanto à compreensão do processo de colonização no Brasil. Não por acaso, selecionamos indivíduos de diferentes origens étnicas e sociais, contemplando assim a heterogeneidade marcante da América portuguesa. Acompanhe a seguir:

Rosa Egipcíaca: a santa africana

Dentre os diversos escritos de Luiz Mott a respeito da ação inquisitorial na América portuguesa, a obra que recupera a trajetória da africana Rosa Egipcíaca é das mais instigantes. Oriunda da Costa da Mina e vendida no Rio de Janeiro como escrava na primeira metade do século XVIII, Rosa Egipcíaca conheceu o duro cotidiano dos cativos na colônia por quase duas décadas, a maior parte do tempo como meretriz, até que delírios místicos e possessões mudassem a sua vida. Abandonando a vida de prostituição, a mulher obteve alforria e tornou-se beata. Em Minas Gerais, onde então vivia, Rosa ganhou fama de santa e visionária, passando a usar os seus prodígios no dia a dia, atraindo inúmeros devotos. Perseguida em Minas Gerais, ela rumou para o Rio de Janeiro. Na nova localidade, Rosa foi inicialmente enaltecida pelo clero local e acolhida no Recolhimento de Nossa Senhora do Parto, tida como santa. No entanto, como não poderia deixar de ser, a sua fama atraiu a atenção da justiça eclesiástica, o que fez com que se tornasse alvo da perseguição inquisitorial, sendo presa em 1763 por suas heresias. O livro analisa de maneira precisa a religiosidade popular na América portuguesa, destacando ainda o comprometimento da Inquisição com a manutenção dos preceitos da doutrina católica.

Pedro Rates Henequim: o profeta português e sua cosmologia sincrética

Em seu livro, “Um Herege vai ao Paraíso”, Gomes analisa a vida e a cosmologia de Pedro Henequim, que foi condenado pela Inquisição em virtude de suas ideias e teses que contrariavam a doutrina católica. Investigando a trajetória deste indivíduo, o autor destaca o caráter multifacetado de sua formação religiosa, oscilando entre os ensinamentos do calvinismo e do catalocismo. Filho bastardo de pai protestante e mãe católica, Henequim foi criado pela família de um cônsul holandês, mas educado em um colégio jesuítico. Já adulto, foi parar na região das Minas Gerais no início do século XVIII, onde se deparou com uma realidade complexa, perpassada por várias línguas, costumes, crenças e gentes. Às influências religiosas de sua juventude se misturaram o conhecimento da cabala judaica e de mitos ameríndios. A convivência neste ambiente tão heterogêneo imprimiu então marcas profundas em suas idéias e concepções, somando-se ainda ao contato que teve com as idéias milenaristas do padre Antônio Vieira, difundidas na região por meio de manuscritos. Relacionando essa vida tão diversa à cosmologia desenvolvida por Pedro Henequim, a qual, dentre outras formulações, localizava o Paraíso no Brasil, onde teriam sido criados Adão, do qual os índios descendiam diretamente, e os anjos, o autor acompanha o processo inquisitorial, detectando assim os mecanismos pertinentes à ação do Santo Ofício. Condenado por contrariar os dogmas da Igreja Católica, Henequim foi condenado a morte em 1744. Ele teve o corpo queimado, reduzido apenas “a pó e cinza, de maneira que nem de sua sepultura houvesse memória”.

Domingos Álvares: o curandeiro africano

Recuperada pelo historiador norte-americano James Sweet, a vida de Domingos Álvares é fascinante. É, acima de tudo, uma história de constante reinvenção. Nascido na África, na região de Daomé, Domingos foi traficado para o Recife como escravo no início do século XVIII. Adepto de práticas mágico-religiosas de cura e adivinhação, o africano rapidamente obteria fama de curandeiro em Pernambuco. O seu proprietário, aproveitando as carências cotidianas da vida na colônia, viu nele uma oportunidade de rendimentos. Passou, então, a agenciar o escravo, cobrando dinheiro de pessoas que procuravam Domingos em busca de seus conhecimentos. A convivência entre os dois, porém, era conflituosa, já que o escravo buscava a sua liberdade. Não demorou até que fosse acusado de usar seus conhecimentos contra a família de seu proprietário quando este ficou doente. Domingos, então foi preso, sendo libertado apenas quando foi comprado por outra pessoa, um sujeito do Rio de Janeiro. O seu novo dono, sabendo de sua fama de curandeiro, o comprou na esperança de resolver a doença crônica de sua esposa. Na nova casa, porém, Domingos não foi bem recebido e ele foi, inclusive, acusado de piorar a condição da senhora. Sua sorte mudou quando ele foi vendido a outra pessoa do Rio de Janeiro. O seu mais novo senhor requisitou os seus conhecimentos de cura para resolver os problemas de saúde dos seus escravos, que adoeciam constantemente. O problema foi de fato resolvido e o escravo passou a atuar como curandeiro em troca de ganhos materiais com a conivência de seu senhor. Mais tarde eles entraram em um acordo: Domingos pagou uma quantia em dinheiro e obteve a sua liberdade. A partir de então, o africano ampliou a sua fama como curandeiro. Atuando publicamente como curandeiro, ele aproveitou-se das necessidades das pessoas para lucrar com suas práticas mágico-religiosas. Sua atuação, porém, fez com que ele entrasse na mira da Inquisição. Denunciado, ele foi encaminhado para Lisboa em 1742, sendo condenado ao exílio em Castro Marim, na fronteira portuguesa com a Espanha. Ali, ele continuaria com suas práticas de curandeirismo, até ser preso uma vez mais pela Inquisição, quando seus rastros desaparecem por completo.

Miguel Ferreira Pestana: o índio mandingueiro

De autoria do historiador Luís Rafael Araújo Corrêa, o livro “Feitiço Caboclo” recupera a vida do índio Miguel Pestana, condenado pela Inquisição portuguesa sob a acusação de feitiçaria na primeira metade do século XVIII. Esta história, inclusive, foi tema de um artigo. Utilizando a trajetória de Pestana como fio condutor, Corrêa analisa a formação religiosa deste indivíduo, que viveu boa parte de sua vida na aldeia jesuítica de Reritiba, no Espírito Santo. Atento à complexa relação mantida entre missionários e índios aldeados, o historiador ressalta as diversas interações sociais tecidas por Miguel Pestana com o mundo colonial, fato que leva o índio a questionar a disciplina regrada dos jesuítas e a ter contato com diversas práticas mágico-religiosas desviantes. A relação conturbada com os padres motiva Miguel a fugir de Reritiba e rumar para o Rio de Janeiro, onde transforma a sua vida: nas freguesias do Recôncavo da Guanabara, o índio ganha a confiança dos senhores locais e torna-se capitão do mato, alcançando uma posição social diferenciada em meio à hierarquia colonial. Em sua vida cotidiana, porém, as erronias perante à Igreja Católica se aprofundam: ele torna-se um afamado usuário de bolsas de mandinga, vendendo artigos mágicos aos que procuravam por sorte e proteção. Contudo, tendo atraído mais atenção do que devia, acaba preso pela Inquisição. Remontando o julgamento do índio, o autor traz à tona os meandros do processo e as insistentes estratégias do réu a fim de evitar sua condenação. Além de refletir sobre diversos aspectos pertinentes à religiosidade e à história indígena, a obra reflete a respeito da ação inquisitorial em relação aos indígenas, tema pouco estudado até hoje.

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