5 Romances Históricos Fundamentais sobre o Autoritarismo na América Latina
A literatura latino-americana é uma excelente referência para conhecermos melhor aspectos históricos sobre os diferentes países da região. Algumas obras, inclusive, constituem grandes clássicos, tendo alcançado significativo reconhecimento de público e de crítica. Identificados por uma leitura agradável, estes livros oferecem um panorama muito rico sobre a realidade das sociedades latino-americanas, sobretudo em relação ao autoritarismo característico das mesmas.
Convém destacar que após as independências na América espanhola, houve o predomínio das elites oligárquicas na condução dos novos países, abrindo espaço para a emergência do caudilhismo, modalidade de exercício do poder político que marcou a América Latina no século XIX e durante boa parte do século XX. O caudilhismo baseava-se no autoritarismo, no exercício do poder através do uso da força e no apoio dos setores da elite, conjugadas com outras instituições, como a Igreja Católica. Confira a seguir uma seleção com 5 romances fundamentais que abordam o autoritarismo na América Latina.
1) Huasipungo (1934), de Jorge Icaza (1906–1973).
Atento à realidade equatoriana, os escritos de Icasa não poupavam críticas ao governo e à sociedade. Embora sua crítica direta ao governo em El Dictador (de 1933) não tenha obtido a repercussão esperada, Huasipungo converteu-se rapidamente em um sucesso, sendo traduzido para diferentes idiomas. Deixando de lado o foco na representação da figura ditatorial, Icasa avalia a relação de dominação dos caudilhos sobre a população mais pobre, em grande parte indígenas, e de outras instâncias de poder, como a Igreja Católica. A história, que se passa no Equador durante a primeira metade do século XIX, tem início na fazenda de dom Alfonso Pereira. Ali, a exploração do trabalho indígena é tão intensa quanto nas demais partes do país, havendo um esforço por parte do autor para evidenciar os laços de poder e subordinação em relação a estes trabalhadores. Icaza não deixa de ressaltar o papel da Igreja, que a partir da dominação espiritual exercida suaviza as condições precárias vivenciadas pelos índios. Os problemas vividos pelos indígenas só pioram quando uma empresa norte-americana, interessada em petróleo, se instala na localidade, agravando ainda mais as mazelas dos mais pobres. Uma obra ímpar, Huasipungo destaca exemplarmente as relações de poder e dominação das oligarquias latino-americanas sobre os mais pobres.
2) El Señor Presidente (1946), de Miguel Angel Astúrias (1899–1974).
Iniciada na década de 1920, quando o autor vivia na Guatemala, e concluída em 1932, época na qual residia na França, a obra só seria publicada em 1946, no México. Havia um motivo para tanta demora: a Guatemala, país natal de Astúrias, estava sob a ditadura de Jorge Ubico Castañeda (1931-1944). Nesse sentido, publicar um livro que tinha como principal marca a denúncia das arbitrariedades e da violência que caracterizavam os regimes ditatoriais na América Latina era um grande risco. Não por acaso, o livro foi lançado depois da morte de Castañeda. Os cuidados da autor se fazem evidentes ainda em seu escrito. Em momento algum o país retratado no romance é mencionado e o ditador é chamado apenas de "O Senhor Presidente". Isto torna a obra ainda mais abrangente, visto que o autoritarismo é um fenômeno recorrente em toda a América Latina. No entanto, a grande referência de Astúrias para a construção do personagem-título foi outro ditador guatemalteco: Estrada Cabrera, que governou o país entre 1898 e 1920. O livro tornou-se uma grande referência, retratando as mazelas dos regimes ditatoriais como poucos.
3) Yo El Supremo (1974), de Augusto Roa Bastos (1917–2005).
Nesta bela obra, o escritor paraguaio explicita diversos elementos que remetem ao fechado regime estabelecido no Paraguai pelo doutor Gaspar Rodríguez de Francia (1776-1840). Francia governou o país de forma ditatorial entre 1816 e 1840 dentro das bases da "ditadura científica" definida por Augusto Comte (1798-1857) e é a principal referência de Roa para construir o personagem "el Supremo". A narrativa segue a trajetória de um homem cujo principal objetivo era perpetuar-se como o principal mandatário de sua nação. A partir de sua vida, são discutidas questões importantes referentes ao poder e ao valor do conhecimento.
4) El otoño del Patriarca(1975), de Gabriel García Márquez (1927-).
Centrada na trajetória de um ditador latino-americano, a história escrita pelo romancista colombiano faz referência a diversos elementos biográficos de lideranças autoritárias da região. Dentre estas, podemos citar Rafael Trujillo (1897-1961), que governou a República Dominicana de forma ditatorial entre 1930 e 1961, bem como o regime de poder unipessoal do ditador venezuelano, o general Juan Vicente Gómez (1857-1935). Gómez, que governou com rigor ao longo do extenso período compreendido entre 1908 e 1935, definia o seu país como "a minha fazenda". O personagem principal, já velho e solitário, governa um país caribenho não identificado. Acostumado com o poder que exerce há décadas, o ditador sem nome se indaga sobre como a nação se comportaria diante de sua morte.
5) La fiesta del chivo (2000), de Mario Vargas Llosa (1936-).
O autor recupera o contexto ditatorial da República Dominicana, quando foi governada por Rafael Leonidas Trujillo. O governo do ditador, que chegou ao poder em 1930 com o apoio dos Estados Unidos e só o deixou em 1961, quando foi assassinado, é retratado por Llosa como um exemplo de Estado patrimonial dotado de uma estrutura personalista de poder. O autor recorre a diferentes temporalidades e ao conceito de memória para conduzir a história, centrada não apenas no ditador, mas também na personagem fictícia Urania Cabral, filha de um alto funcionário do governo, que serve como interlocutora entre as figuras históricas.
Luís Rafael Araújo Corrêa é professor do Colégio Pedro II e Doutor em História Social pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Autor de artigos e livros sobre História, como a obra Feitiço Caboclo: um índio mandingueiro condenado pela Inquisição.