A Afirmação das Identidades Indígenas no contexto da Globalização
Dentre os hospitais do Chile, o de Makewe, o único hospital mapuche de todo o país, se destaca por sua excepcionalidade. Ele é administrado por uma organização dos próprios índios mapuches, a Associação Indígena para a Saúde Makewe-Pelale, que representa 35 comunidades. Na prática, isso significa não apenas o atendimento de necessidades essenciais às comunidades, mas o reforço de seus costumes e práticas através do modelo médico chamado intercultural, em que a biomedicina e a medicina indígena se articulam.
É difícil não olhar para a entidade mapuche com certa surpresa quando consideremos o termo globalização em sua definição mais difundida. Como ainda se lê na maioria dos livros didáticos, a globalização é apresentada como um processo caracterizado pelo aprofundamento da integração mundial, resultando na uniformização da ideologia e da ordem econômica capitalistas, conduzindo então a uma inevitável homogeneização cultural.
No entanto, a exemplo do caso chileno, esta aludida homogeneização tem sido cada vez mais confrontada pela afirmação de identidades locais na contemporaneidade. Tal perspectiva, marcada por uma evidente ideia assimilacionista e por uma visão dicotômica, acaba por não dar conta da realidade, visto que a explicação simples de que o mundo caminha rumo a uma aldeia global desconsidera toda a dinâmica atual.
A verdade é que hoje os movimentos sociais indígenas são cada vez mais fortes e organizados. As reivindicações desses grupos não estão ligadas apenas a tradicional questão material em torno da posse da terra, mas também a lutas que envolvem a preservação de suas culturas e valores. Em suma, batalham pelo reconhecimento de sua alteridade. Mas o que está por trás deste protagonismo indígena? Para responder a essa pergunta é importante considerar e articular aspectos fundamentais do contexto recente, como a crise do Estado-nação e o próprio processo de globalização.
O conceito moderno de nação, que advém do século XIX, foi se naturalizando com o passar do tempo. De maneira geral, pode ser definido como um conjunto de sentimentos compartilhados por um determinado povo, que divide também um território comum sob a égide de um Estado. Contudo, como já destacava Weber, é preciso pensar a nação de forma antiessencialista, isto é, tendo em vista que a identidade nacional é uma construção. Esta parte sempre de um princípio totalizante, visando atingir uma unidade cultural que implica sobrepujar esta eminente identidade em relação a outras.
No caso de grande parte da América Latina, o projeto de construção destas identidades pautou-se na instituição de uma cultura aos moldes europeus, tida como ideal de civilização, amparada no pressuposto de que a sua difusão levaria à aculturação dos demais grupos e a conseqüente incorporação dos mesmos ao restante da sociedade. Todavia, o que fica claro hoje a partir da emergência de diferentes coletivos indígenas organizados, é que essa identidade nacional, embora tenha se afirmado durante tanto tempo a partir de políticas centralizadoras e autoritárias, não se sobrepôs em relação às demais. E, em um momento em que a ideia de Estado-nação tem sido cada vez mais problematizada por interesses e movimentos transnacionais, a existência de diferenças étnicas nos países latino-americanos fica ainda mais evidente.
Nesse sentido, é inegável que a marcha de expansão do capitalismo, que teve como grande impulso o fim da Guerra Fria e a derrocada do bloco socialista, tem sido um dos grandes responsáveis pelos questionamentos ao Estado-nação. Avançando sem respeitar as fronteiras nacionais, tal movimento afeta diretamente a soberania do Estado, que vê seu poder limitado e condicionado pelo jogo das corporações, conglomerados internacionais e órgãos mundiais de grande influência, como o Banco Mundial (BIRD), a Organização Mundial de Comércio (OMC) e o Fundo Monetário Internacional (FMI). Aliado a onda neoliberal, o Estado-nação vê-se pressionado a uma reestruturação, pautado em um Estado mínimo através da desestatização da economia nacional.
Como não poderia deixar de ser, essa conjuntura internacionalizante teve grandes consequências na maior parte dos países americanos. As identidades locais, e a questão indígena em especial, vem ganhando grande força na medida em que as identidades nacionais tem sido colocadas em xeque. Excluídas desde o princípio do projeto de implementação de uma matriz cultural única, estas identidades étnicas passam por um dinâmico processo de reelaboração em consonância com os desafios que se impõem, emergindo na forma de reivindicações que almejam o reconhecimento de suas demandas materiais, de direitos sociais e do reconhecimento das diferenças.
Isso só mostra que, diferente do que se dizia em várias correntes das ciências sociais em países como o Brasil e a Argentina, os índios não desapareceram em virtude de uma aculturação que se impôs. Ao contrário: não só não sumiram, como a demografia histórica revela o crescimento dessas populações nos últimos tempos e as organizações indígenas, reivindicando e reavendo direitos, registram suas atuações e suas novas formas de expressão política. Particularmente, o período de abertura democrática dos países americanos foi fértil para estes movimentos, visto que, entre outras conquistas, obtiverem o direito de se afirmarem enquanto indígenas. A confirmação está nas várias constituições adotadas por esses países na década de 1980, prevendo o caráter multiétnico do Estado. No caso do Brasil, a Constituição de 1988 foi a primeira da História a assegurar o respeito às organizações sociais e à cultura dos diferentes povos.
No entanto, exaltar essas atuações como a retomada de uma tradição secular totalmente desvinculada com o mundo ocidental seria tão ingênuo quanto a ideia de caminhada rumo à aldeia global. É impossível negar que a globalização tenha exercido e ainda exerce influência sobre esses grupos, sendo por isso muito importante considerar o conceito de glocalização. Tal articulação do global com o local é essencial para entender que o que há é a reelaboração das identidades étnicas de acordo com o contexto, remetendo a um caráter flexível das etnias, as quais são construídas historicamente. Esse aspecto glocal se manifesta de diversas formas; dentre elas estão a utilização da Internet como forma de se afirmarem enquanto grupo e a instrução universitária por parte de líderes como instrumento a ser utilizado em prol de suas lutas.
Dessa forma, a situação atual desses povos nos leva a repensar a tradicional ideia de que a colonização os sentenciou à extinção. Revela também a reelaboração de suas identidades étnicas através de estratégias de resistência e de adaptação que estão longe de significarem uma aculturação. Por fim, suas atuações políticas visando reconquistar direitos os afastam definitivamente da visão de vítimas passivas e os colocam como protagonistas de suas próprias histórias.
Luís Rafael Araújo Corrêa é professor do Colégio Pedro II e Doutor em História Social pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Autor de artigos e livros sobre História, como a obra Feitiço Caboclo: um índio mandingueiro condenado pela Inquisição.
REFERÊNCIAS
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OLIVEIRA, João Pacheco de (Org.). Indigenismo e territorialização: poderes, rotinas e saberes coloniais no Brasil contemporâneo. Rio de Janeiro : Contra Capa, 1998.
POUTIGNAT, Philippe; FENART, Jocelyne Streiff. Teorias da Etnicidade. São Paulo: UNESP, 1998.
WEBER, Max. Economia e Sociedade: Fundamentos da Sociologia Compreensiva (volume 1). Brasília: UnB, 1991.