A Autobiografia de um Africano Escravizado no Brasil

História em Rede
8 min readJun 26, 2019

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Tema recorrente entre os historiadores e em representações históricas, a escravidão tem sido recuperada a partir de uma série de fontes documentais. Desde dados sobre o desembarque de navios negreiros até livros paroquiais que detalham o batismo ou o óbito de um cativo, muitos são os registros que dão conta de iluminar essa relação de trabalho que movimentou a economia brasileira durante tanto tempo. Ainda assim, quase nunca temos a oportunidade de contemplar o ponto de vista dos próprios escravos. E não se trata de um simples descaso dos historiadores. De fato, fora o que a oralidade preservou, é muito difícil encontrar informações nesse sentido.

Obviamente, isso não quer dizer que elas não existam. A autobiografia de Mahommah Gardo Baquaqua, africano traficado ao Brasil como escravo e que também viveu nos EUA, é um relato precioso sobre a escravidão na ótica de um escravo. Oferecendo inúmeras possibilidades de análise, o documento em primeira pessoa traz novos ares sobre o assunto.

Mas, afinal, quem era esse sujeito? Baquaqua nasceu no norte da África, mais especificamente em ZooGoo, localizado no atual Benin. A data de seu nascimento é incerta, mas foi em algum ano da década de 1820. Criado em uma família muçulmana, Gardo, como muitos o conheciam, tornou-se guarda pessoal de um governante local por volta de seus vinte anos. Despertando inveja em virtude da posição que assumiu como guarda, Baquaqua diz ter sido traído e escravizado. Enviado para Uidá, ele acabaria sendo embarcado em um navio negreiro e enviado ao Brasil como escravo em 1845.

Antes de embarcar, porém, ele ficou na casa de um homem branco, o primeiro que havia visto na vida, e encontrou um conterrâneo, de nome Woo-roo. O rapaz, que servia como escravo na casa deste branco, reconheceu Baquaqua pelo seu cabelo. Neste momento, ele ressaltou diversos elementos referentes à cultura africana em seu relato. Pontuando sobre traços e características de distinção entre as diferentes etnias do continente a partir da forma do cabelo, ele anota:

“Na África, as nações das distintas partes do território têm seus modos diferentes de cortar o cabelo e são conhecidas, por essa marca, a que parte do território pertencem. Em ZooGoo, o cabelo de ambos os lados da cabeça é raspado e, em cima da cabeça, da testa até atrás, deixa-se o cabelo crescer em três mechas redondas que ficam bem compridas mantendo-se os espaços entre elas raspados rente à cabeça. Para alguém familiarizado com os diferentes cortes, não há dificuldade para reconhecer a que lugar um homem pertence”.

Prosseguindo em seu relato, chegamos a um dos pontos mais interessantes da narrativa. De forma detida, Baquaqua refere-se aos pormenores do tráfico negreiro. A descrição feita por alguém que vivenciou essa experiência é de fato única:

“Escravos vindos de todas as partes do território estavam ali e foram embarcados. O primeiro barco alcançou o navio em segurança, apesar do vento forte e do mar agitado; o próximo a se aventurar, porém, emborcou e todos se afogaram, com exceção de um homem. Ao todo, trinta pessoas morreram”.

As condições do navio negreiro eram as piores possíveis. Baquaqua enfatiza como os africanos eram transportados, confinados no escasso espaço da embarcação:

“Fomos arremessados, nus, porão adentro, os homens apinhados de lado e as mulheres do outro. O porão era tão baixo que não podíamos ficar em pé, éramos obrigados a nos agachar ou a sentar no chão. Noite e dia eram iguais para nós, o sono nos sendo negado devido ao confinamento de nossos corpos. Ficamos desesperados com o sofrimento e a fadiga”.

E não era apenas a lotação do navio que incomodava os africanos. A falta de comida e água era outro tormento. Baquaqua expõe suas amargas experiências quanto a isso:

“A única comida que tivemos durante a viagem foi milho velho cozido. Não posso dizer quanto tempo ficamos confinados assim, mas pareceu ser muito tempo. Sofríamos muito por falta de água, que nos era negada na medida das necessidades. Um quartilho por dia era tudo que nos permitiam e nada mais. Muitos escravos morreram no percurso. Houve um pobre companheiro que ficou tão desesperado pela sede que tentou apanhar a faca de um homem que nos trazia água. Foi levado ao convés e eu nunca mais soube o que lhe aconteceu. Suponho que foi jogado ao mar”.

A insubordinação, aliás, não era tolerada na viagem. Baquaqua conta que os que ousavam sofriam duras consequências:

“Quando qualquer um de nós se tornava rebelde, sua carne era cortada com faca e o corte esfregado com pimenta e vinagre para torná-lo pacífico (!)”.

As dificuldades da viagem fizeram inúmeras vítimas. Os que não conseguiam resistir eram sumariamente descartados:

“Alguns foram jogados ao mar antes que o último suspiro exalasse de seus corpos; quando supunham que alguém não ia sobreviver, era assim que se livravam dele”.

Para os que resistiam à travessia, os porões do navio eram como uma prisão:

“Apenas duas vezes nos permitiram subir ao convés para que pudéssemos nos lavar – uma vez enquanto estávamos em alto mar, e outra pouco antes de entrarmos no porto”.

Baquaqua desembarcou no Brasil como cativo ainda em 1845. Depois de 30 dias de viagem, ele chegou a Pernambuco. Ali, ele foi vendido a um mercador de Recife, que, por sua vez, o revendeu a um padeiro que vivia no interior da província. Em seu relato, há maiores informações sobre o seu dono:

“Sua família era composta por ele, sua mulher, duas crianças e uma parente. Além de mim, ele tinha quatro escravos. Ele era católico, e fazia regularmente as orações com a família duas vezes por dia”.

Baquaqua deixa claro o quanto a vida dos cativos era difícil no Brasil. O trabalho era desgastante e ele era empregado em qualquer atividade conveniente ao seu senhor:

“Quando este homem me comprou ele estava construindo uma casa. Era necessário buscar pedras para construção a uma distância considerável, do outro lado do rio, e fui forçado a carregá-las. Eram tão pesadas que três homens foram incumbidos de erguê-las e colocá-las sobre minha cabeça, fardo que era obrigado a sustentar por pelo menos um quarto de milha, até o local onde se encontrava o barco”.

O cotidiano de Baquaqua enquanto escravo, como não poderia deixar de ser, era marcado pela violência. Não apenas física, mas também psicológica. O seu senhor, em Pernambuco, o obrigava junto aos demais escravos a seguir rigorosamente a liturgia católica, em uma rotina deveras desgastante:

“Ele era católico , e fazia regularmente orações com a família (...) nós todos tínhamos que nos ajoelhar diante delas; a família na frente e os escravos atrás. Fomos ensinados a entoar algumas palavras cujo significado não sabíamos. Também tínhamos que fazer o sinal da cruz diversas vezes. Enquanto orava, meu senhor segurava o chicote na mão e aqueles que mostravam sinais de desatenção ou sonolência eram prontamente trazidos à consciência pelo toque ardido do chicote”.

Apesar de toda violência empregada, Baquaqua deixa claro que a resistência era recorrente, mesmo em uma relação de forças desigual como a escravidão. Encarregado de vender o pão de seu senhor, Baquaqua costumava ser castigado quando não conseguia vender toda a mercadoria. Em dada oportunidade, ele se rebelou e decidiu experimentar a embriaguez tal qual outros escravos com quem conviveu:

“Assim, um dia, quando me mandaram vender pão como de costume, vendi apenas uma pequena quantia e, com o dinheiro que recebi comprei uísque e bebi a vontade, voltando para casa bastante embriagado. Quando fui fazer as contas da diária, meu senhor pegou minha cesta e, descobrindo o estado em que as coisas estavam, fui muito severamente espancado. Eu disse a ele que não deveria mais me açoitar e fiquei com tanta raiva que me veio a ideia de matá-lo e, em seguida, suicidar-me”.

Insatisfeito com a rebeldia do escravo, que passou a se embriagar com frequência, o padeiro o revendeu para um mercador. Após ser vendido a outros senhores, dentre os quais um fazendeiro cruel, Baquaqua acabou sendo arrematado pelo capitão de um navio comercial. Ele trabalhou por alguns anos nessa embarcação. O ponto de virada na trajetória de Gardo foi quando o seu senhor ficou responsável por transportar sacas de café até Nova Iorque. Era o fim de sua experiência em território brasileiro.

Nos Estados Unidos, Baquaqua seria libertado por abolicionistas de Nova Iorque. Dali rumou para o Haiti, onde teve uma breve experiência antes de retornar à Nova Iorque, em 1849. Sem paradeiro certo, rumou em seguida para o Canadá, onde publicou a sua autobiografia com o apoio do editor Samuel Moore. Após a publicação, as informações sobre a sua vida tornam-se cada vez mais raras. O que sabemos é que anos depois de ter publicado seu escrito pessoal, Baquaqua tentava voltar para a sua terra natal. Teria conseguido? Até o momento não temos respostas.

Definitivamente, a biografia de Baquaqua oferece um relato único sobre a escravidão. Não a partir de quem escravizou, mas do próprio escravizado. E até por isso, a obra é um autêntico manifesto anti-escravista. Como o próprio Baquaqua conclui:

“Que aqueles indivíduos humanitários, que são a favor da escravidão, coloquem-se no lugar do escravo no porão barulhento de um navio negreiro, apenas por uma viagem da África a América, sem sequer experimentarem mais que isso dos horrores da escravidão; se não saírem abolicionistas convictos, então não tenho mais nada a dizer a favor da abolição”.

A autobiografia completa de Baquaqua foi lançada recentemente pela editora Uirapuru e pode ser adquirida no site da própria editora.

Luís Rafael Araújo Corrêa é professor do Colégio Pedro II e Doutor em História Social pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Autor de artigos e livros sobre História, como a obra Feitiço Caboclo: um índio mandingueiro condenado pela Inquisição.

Bibliografia

BAQUAQUA, Mahommah Gardo. Biografia de Mahommah Gardo Baquaqua: um nativo de Zoogoo, no interior da África . Itajaí : Uirapuru, 2017.

LARA, Sílvia Hunold (Apresentação). Biografia de Mahommah G. Baquaqua. Revista Brasileira de História. São Paulo. V. 8, n. 16, mar./ago., 1988.

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