Cinema & História: reflexões sobre a História a partir do documentário “Janela da Alma”
O filme Janela da Alma, de João Jardim e Walter Carvalho, parte de uma frase do célebre Leonardo da Vinci, "o olho é a janela da alma, o espelho do mundo", para tratar a respeito do olhar e suas diferentes perspectivas. Refletindo de maneira profunda sobre a forma como as pessoas vêem a si mesmas, como vêem os outros e como percebem o mundo, o filme abre espaço para discussões que envolvem temas bem mais amplos.
Considerando isto como ponto de partida, buscaremos responder a uma questão que norteará esta breve exposição: como um documentário sobre deficiências visuais pode revelar-nos aspectos mais complexos da epistemologia da História? A partir da inspiração propiciada pelo documentário, partiremos de reflexões a respeito das várias maneiras de olhar com o objetivo de discutir a História enquanto uma interpretação em relação ao passado em contraponto a uma perspectiva que almeja a verdade histórica.
"Nós não conhecemos a realidade como ela é, e sim a interpretamos". Nessas, que são as primeiras palavras do escritor português José Saramago no longa, podemos perceber um dos principais aspectos discutidos em Janela da Alma: a relação entre ver e conhecer. Isto remete a idéia de que pontos de vista diferentes equivalem a uma compreensão distinta da realidade, sendo mediados, como bem completa Saramago, "por nossos conceitos". Estabelecendo uma relação direta com o ofício do historiador, denota-se essa dimensão interpretativa: a História, longe de ser um conjunto de acontecimentos remotos a serem reconstituídos, é mais um olhar - olhar este condicionado por aquele que vê, o que pressupõe variações - sobre o passado. Complementando essa idéia e indo no mesmo sentido de encará-la como uma interpretação, Michel de Certeau atenta ainda para o fato da História ser uma operação que compreende "a combinação de um lugar social, de práticas científicas e de uma escrita". A interpretação histórica insere-se, portanto, em um modelo subjetivo o qual depende de um sistema de referência.
A respeito dos fatores que condicionam o nosso olhar, bastante elucidativo é o depoimento de Oliver Sacks no documentário: o escritor e neurologista destaca as íntimas relações entre a visão, a apreensão de imagens, e o conhecimento adquirido previamente, estabelecendo a devida ligação destas imagens apreendidas com a memória emotiva do sujeito nas interações sociais. No plano da História, observa-se um movimento semelhante: como bem destaca Adam Schaff em seu livro "História e verdade", o que ele considera como o terceiro modelo do processo de conhecimento caracteriza-se por ser um "processo subjetivo-objetivo do conhecimento no qual o sujeito apreende o objeto no decorrer da atividade, enquadrado na prática social do sujeito". A relação feita com o filme se dá, portanto, na apresentação do processo perceptivo-cognitivo do sujeito, como uma transformação do objeto no interior do mesmo de acordo com suas peculiaridades. Em outras palavras: "determinações sociais que penetram no seu psiquismo mediante a língua em que pensa, pela mediação de sua situação de classe e dos interesses de grupo que a ela se ligam, pela mediação das suas motivações conscientes ou subconscientes e, sobretudo pela mediação da prática social”. Desta maneira, acabamos por atestar o caráter ativo do sujeito neste modelo do processo de conhecimento, na qual a perspectiva de História aqui exposta se insere, corroborando o fato de que o conhecimento é uma atividade e o indivíduo um ser social.
Como já insinuamos, essa visão da História enquanto uma interpretação rompe com perspectivas tradicionais, notadamente do Oitocentos, tal qual a Escola Metódica, que defendia a possibilidade de se estabelecer uma versão verdadeira da história. Esta leitura via os documentos como se fossem "janelas" para o passado, de modo que historiadores como Ranke os viam como vestígios que detinham a aura do passado. No entanto, a noção de documento como monumento é fundamental no sentido de reconhecer que ele foi feito com uma finalidade e que é regido por um sistema de convenções. Isso nos leva a crer que a forma como se olha para uma fonte deve levar em conta tais aspectos justamente para que não seja encarada como uma verdade dada. No filme, Saramago ressalta que os nossos olhos vêem aquilo que está apto a ver, o que faz com que a forma como olhamos para algo nos proporcione novas possibilidades de ver. Da mesma maneira, um novo olhar sobre os documentos, orientado por questões e impressões, nos permite ver outras coisas. A mudança de foco conduz então a uma nova abordagem. A esse respeito, Marc Bloch, em sua bela obra Apologia da História, sintetiza isso bem: "entre a vida dos santos da alta Idade Média, pelo menos três quartos são incapazes de nos ensinar qualquer coisa de concreto sobre os piedosos personagens cujo destino pretendem nos retraçar. Interroguemo-las, ao contrário, sobre as maneiras de viver ou de pensar particulares às épocas em que foram escritas, todas as coisas que o hagiógrafo não tinha o menor desejo de nos expor. Vamos achá-las de um valor inestimável".
A referida construção do conhecimento histórico exige escolhas ao historiador com o intuito de direcionar sua pesquisa. A fim de estabelecer uma importante analogia com o documentário Janela da Alma, destacamos o importante depoimento de Wim Wenders: em uma cena emblemática, o cineasta em questão fala da sua necessidade de usar óculos. Após uma breve e desagradável experiência que tivera com lentes de contato, ele lembra da necessidade que teve de voltar a usar os óculos. A razão principal segundo o mesmo era que precisava sentir a sensação de enquadramento que os óculos proporcionavam pois, de certa forma, o uso do óculos focava sua atenção em um determinado espaço, em um determinado aspecto da paisagem. Da mesma forma, o fazer historiográfico demanda uma visão seletiva: o conhecimento histórico é enquadrado pelos questionamentos do historiador, funcionando tal qual os óculos para Wim Wenders.
Esses questionamentos, formulados a partir dos métodos, dos referenciais teóricos e das prioridades do historiador, são fundamentais então na medida que "os fatos não podem falar enquanto não tiverem sido interrogados". Assim, como bem define Paul Veyne, "o número de páginas que o autor concede aos diferentes momentos e aos diversos aspectos do passado é uma média entre a importância que têm esses aspectos aos seus olhos e a abundância da documentação".
A reconstrução do passado e a pretensa intenção de obter a verdade a respeito do passado caem, então, por terra. No entanto, a impossibilidade de presenciar ou reconstituir os eventos históricos, não impedem o historiador de buscar uma representação desse passado a partir de seus próprios questionamentos. Isso muito se relaciona com a situação de alguns dos entrevistados no filme, que diante da perda parcial ou completa da visão, buscarão alternativas à deficiência: o fato de estarem impossibilitados de enxergar não os impediu de construir imagens. Pessoas como Arnaldo Godoy, vereador em Minas Gerais, e Eugen Bavcar, um fotógrafo cego esloveno, se viram obrigadas a recorrer a pequenos detalhes advindos de cada um dos outros sentidos, normalmente ignorados por aqueles que possuem a visão, com o intuito de interpretá-los e compor na mente uma cena próxima do real por meio destas partes. De maneira semelhante, cabe justamente ao historiador, por meio das pistas que dispõe, interrogá-las a fim de construir sua própria interpretação. A História, portanto, não está dada. Pelo fato de nossa visão ser fruto de uma interpretação, mediada por nosso próprio ser, a interpretação dos eventos históricos resultará sempre em representações do passado. E estas, como nossa visão, são sempre influenciadas pelo que conhecemos.
Luís Rafael Araújo Corrêa é professor do Colégio Pedro II e Doutor em História Social pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Autor de artigos e livros sobre História, como a obra Feitiço Caboclo: um índio mandingueiro condenado pela Inquisição.
Referências Bibliográficas
BLOCH, Marc. Apologia da História, ou o ofício de historiador. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001.
CERTEAU, Michel de. A escrita da história. Rio de Janeiro. Forense. 1982.
SCHAFF, Adam. História e verdade. São Paulo: Martins Fontes, 1983.
THOMPSON, Edward Palmer. A miséria da teoria ou um planetário de erros: crítica ao pensamento de Althusser. Rio de Janeiro: Zahar, 1981.
VEYNE, Paul. 'Tudo é histórico, logo a história não existe’. In: _____. Como se escreve a história. Lisboa: Edições 70, 1983.