Frei Thomaz: uma anedota educacional em “O Tico-Tico” (1905)

História em Rede
5 min readJan 21, 2019

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A revista "O Tico-Tico" foi uma das grandes pioneiras na publicação de quadrinhos no Brasil. Inspirada na revista francesa "La Semaine de Suzette", a publicação brasileira direcionada ao público infantil foi lançada no dia 11 de outubro de 1905 e rapidamente caiu nas graças dos leitores da época. Criada durante a Primeira República (1889–1930), as histórias de "O Tico-Tico" se relacionavam em grande medida ao contexto político, social e cultural que o Brasil, e principalmente a capital federal, então vivia.

No caso da história que analisaremos, publicada na edição de 22 de novembro de 1905, não foi diferente. Em "Frei Thomaz" percebe-se uma clara ligação dos quadrinhos com as discussões em torno dos rumos da educação na República recém-estabelecida. Mais do que isso, a história revela ainda uma crítica sutil aos métodos pedagógicos tradicionais, dominantes no Brasil até o final do século XIX e que, mesmo questionados, fizeram-se presentes no alvorecer do século XX. Esta Pedagogia Tradicional caracterizava-se sobretudo pelo autoritarismo do professor em relação aos alunos, cujo único papel era receber o conhecimento transmitido pelo mestre. Os conteúdos ensinados eram considerados verdades absolutas e os conhecimentos prévios dos alunos, assim como a participação dos mesmos, eram completamente ignorados. A metodologia de ensino, por sua vez, baseava-se na exposição verbal pelo docente, na resolução de exercícios e na memorização. A grande preocupação, portanto, era "como ensinar". Contudo, este modelo tradicional passou a ser criticado após a instauração da República, em 1889, de modo que diversos grupos da sociedade se debruçaram a fim de encontrar novos caminhos para a educação no Brasil.

Em um momento inicial, conhecido como "Entusiasmo pela Educação" e que se estendeu até 1920, a grande preocupação era difundir a escolarização entre a população brasileira, reduzindo o analfabetismo, ampliando o número de eleitores e inserindo o país na direção do progresso. Os resultados, porém, não foram expressivos quanto ao aumento da qualidade do ensino, mas sim em relação ao maior acesso à educação. Foi apenas na década de 1920, com o fortalecimento do movimento conhecido como "Escola Nova", que a prioridade mudou: o enfoque era na renovação dos recursos didáticos e na qualidade da educação, colocando o aluno no centro da aprendizagem. A grande questão passou a ser, então, "como aprender". Apesar de constituir um esforço inicial no sentido de mudar o quadro educacional brasileiro, é a partir deste contexto de questionamento do ensino tradicional e do surgimento de novas correntes pedagógicas ocorrido no início do século XX que devemos compreender a história em quadrinhos a ser analisada, bem como a sua crítica implícita.

A princípio, vários elementos presentes em "Frei Thomaz" (a história completa está na imagem 1) apontam para o predomínio da pedagogia tradicional na sala de aula em questão. O primeiro e mais evidente é a existência de um tablado. Ao mesmo tempo em que ele coloca o professor em evidência no espaço físico, também o situa em uma clara posição de superioridade, dando a entender que ele está em um patamar diferenciado, e acima, em relação aos seus alunos. O fato de haver dois alunos contra a parede, indicando que estão de castigo, destacam o exercício da autoridade por parte do docente, traço característico do ensino tradicional. Outro ponto interessante nesse sentido é a idéia do professor ser o centro das atenções enquanto os alunos são meros espectadores da aula, o que se percebe na maior parte da história. Tal qual pressupõe esta pedagogia, o mestre é o único detentor do conhecimento.

No entanto, o desenrolar da história mostra que apesar do ambiente escolar representado ser dominado por elementos que destacam o professor e atribuem uma posição passiva aos alunos, na prática o que ocorreu nos quadrinhos não foi exatamente assim. Quanto a isto, vale observar que se por um lado o castigo constitui um instrumento utilizado pelo professor com o intuito de afirmar a sua autoridade, por outro a necessidade de aplicar tal castigo revela que esta autoridade foi alvo de questionamento pelos alunos, mesmo que isto esteja implícito na história. A este respeito, embora não saibamos exatamente o que levou os estudantes a serem punidos, fato é que alguma das regras existentes foi descumprida, dando a entender que nem sempre a ordem e a disciplina previamente estabelecidas eram seguidas.

Aliás, mesmo no castigo a figura de poder tão associada ao professor numa visão tradicional de ensino é questionada. Como bem se observa nos quadrinhos 1 e 2, um dos alunos castigados está rabiscando a parede. Embora isso por si só já fosse uma forma de desrespeitar a sala de aula, o ato representava uma falta ainda maior por ser uma caricatura do próprio professor. A tal caricatura, evidente a partir da presença de uma vara semelhante ao que o docente carrega debaixo do braço, não deixa de apontar para o atrevimento do aluno, que certamente não enxergou o mestre com a reverência esperada.

Os risos e festejos demonstrados pelos alunos no quarto quadrinho, provocados pela queda acidental do professor ao tentar recolher um lenço caído no chão, reforçam ainda mais o questionamento da autoridade por parte dos discentes. Aqui, observa-se escárnio ao invés de ajuda ou preocupação, não estando de acordo com a deferência que poderia se esperar de um modelo de ensino que encara o mestre como grande referência e os estudantes como meros receptores de conteúdo. O riso, a propósito, não deixa de ser também um meio através do qual os alunos extravasam a tensão existente na relação entre professor e aluno, que ao invés de ser simplesmente dominada pelo docente, é marcada pelo conflito entre ambas as partes.

A conclusão da história, na qual os alunos fazem uma analogia ao refrão pregado por Frei Thomaz ("Fazei o que ele diz, mas não façais o que ele faz", prontamente convertido em "Fazei o que ele diz, mas não caias como ele cai"), não apenas confere graça e humor, como também completa o tom de crítica aos métodos pedagógicos tradicionais perceptível nestes quadrinhos. No fim das contas, ao indicar a queda do professor e a exclamação dos alunos, a história ressalta que o mestre também é passível de eventuais equívocos e, consequentemente, não é detentor de todo conhecimento, indo contra a sacralização de sua figura.

A historinha, curta e carregada de significados, denota nas entrelinhas um aspecto da educação que hoje se faz cada vez mais relevante: a atuação e participação dos estudantes, que não pode ser evitada ou ignorada. É através da interação entre professor e alunos, e não da passividade diante de alguém considerado como a única fonte de saber, que se dá a construção cotidiana do conhecimento, indispensável para o processo de ensino-aprendizagem.

Luís Rafael Araújo Corrêa é professor do Colégio Pedro II e Doutor em História Social pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Autor de artigos e livros sobre História, como a obra Feitiço Caboclo: um índio mandingueiro condenado pela Inquisição.

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