Mafalda e o medo de que a Guerra Fria se tornasse Quente
A Guerra Fria, conflito ideológico entre os Estados Unidos e a União Soviética que perdurou de 1947 até 1991, deixou marcas profundas em seus contemporâneos. Este período, eivado pela bipolaridade que opunha Capitalismo e Comunismo, notabilizou-se pela permanente tensão, mesmo que conflitos armados diretos jamais tenham sido travados entre norte-americanos e soviéticos.
Mesmo que a guerra efetivamente jamais tenha acontecido, a possibilidade de que ocorresse era o suficiente para atormentar as pessoas por todo o mundo. Isso porque, durante a Guerra Fria, um dos maiores temores da humanidade era o de que o conflito entre os Estados Unidos e a URSS resultasse em uma Hecatombe Nuclear. O medo não era por acaso, já que, por diversas oportunidades, a disputa ideológica entre os dois países quase se tornou bem quente.
Obviamente, isto deixou marcas profundas na mentalidade das pessoas, passando esta a ser temperada por um forte pessimismo. Poucas frases resumem tão bem o sentimento predominante nesta época do que a de Albert Einstein: "Não sei como será a Terceira Guerra Mundial, mas poderei vos dizer como será a Quarta: com paus e pedras".
No mundo dos quadrinhos, as reflexões perspicazes que aparecem nas tirinhas de Mafalda, produzidas pelo argentino Quino e publicadas entre 1964 e 1973, chamam a atenção sobre esta questão. Sempre sensível aos problemas políticos, sociais, culturais e científicos pertinentes ao mundo de sua época, não economizando questionamentos que emergiam de sua alma infantil, Mafalda mostrou-se sempre preocupada com a possibilidade de uma Guerra Nuclear.
Nas várias histórias que abordam o assunto, carregadas de humor e sutileza, é possível atentar perfeitamente para o medo e a descrença que afligiam as pessoas diante de uma Catástrofe Nuclear, que não parecia distante para os contemporâneos da Guerra Fria. Sem se furtar a oferecer um olhar crítico sobre o contexto, Quino se valeu de Mafalda para ressaltar a irracionalidade do conflito, o qual fez com que norte-americanos e soviéticos subordinassem o destino da humanidade em prol de seus interesses.
Luís Rafael Araújo Corrêa é professor do Colégio Pedro II e Doutor em História Social pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Autor de artigos e livros sobre História, como a obra Feitiço Caboclo: um índio mandingueiro condenado pela Inquisição.