Mein Kampf Ilustrado: uma sátira à Adolf Hitler

História em Rede
4 min readJun 20, 2019

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Na década de 1930, Carl Meffert, alemão que vivia exilado na Argentina, criou um livro ilustrado com um objetivo bem específico: ridicularizar o líder do Partido Nazista e principal figura política da Alemanha no período entreguerras, Adolf Hitler. Sob o pseudônimo de Clément Moreau, o autor reproduziu trechos selecionados do livro "Mein Kampf", complementando o texto com ilustrações em quadrinhos. A obra, que é um libelo antifascista, apontava as contradições e o autoritarismo da ideologia nazista de maneira jocosa, sendo muito eficiente em seu intento.

E Meffert não poderia ter escolhido uma obra melhor para criticar o ditador nazista. Lançado em 1925, o Mein Kampf foi o livro no qual Hitler narrou a sua própria trajetória e apresentou as suas ideias, lançando as bases ideológicas do nazismo. Tendo alcançado uma enorme repercussão na época de seu lançamento, o livro de Hitler foi proibido na Alemanha e em outros países, voltando a circular mais livremente a partir de 2015, quando caiu em domínio público.

Havia bons motivos para o ressentimento de Carl Meffert em relação ao nazismo. Tendo nascido em 1903, na Alemanha, ele vivenciou o conturbado contexto da Primeira Guerra Mundial. O evento influenciou diretamente as suas convicções, tornando-se ativista político de esquerda. Ele chegou, inclusive, a participar da Liga Espartaquista, organização de orientação marxista que militava contra a guerra e defendia ações revolucionárias em prol do socialismo. O ativismo político, porém, cobrou um preço: Meffert foi preso em virtude de sua atuação logo após o fim da Primeira Guerra Mundial. Depois de ficar quase dez anos encarcerado, Carl Meffert foi libertado no final dos anos 1920 e passou a se dedicar à arte, em Berlim. E, como não poderia deixar de ser, a sua arte caracterizou-se acima de tudo por explorar temas políticos.

No entanto, sua vida tomaria um outro rumo após a ascensão do nazismo na Alemanha. Transitando entre Berlim e a Suíça em função de suas atividades artísticas, Meffert quase foi preso pela Gestapo (polícia secreta nazista) em 1933, quando estava em Berlim. Ele retornou à Suíça, passando a viver como imigrante ilegal. Adotando o nome Clément Moreau para evitar suspeitas, a sua vida ficou cada vez mais difícil. Após dois anos de turbulências, ele decidiu se refugiar na Argentina em 1935, temendo ser deportado para a Alemanha pela polícia Suíça.

Na Argentina, mantendo a sua identificação como Clément Moreau, ele prosseguiu com sua carreira artística. E, distante das garras dos nazistas, ele encontrou o cenário ideal para expor suas críticas à Hitler. A sua paródia ao Mein Kampf foi publicada no ano de 1937, em alemão, no jornal Argentinisches Tageblatt, e, entre 1939 e 1940, em espanhol, no Argentina Libre. E o conteúdo da obra é bem diferente da autoimagem que Adolf Hitler tentou construir para si mesmo. Ao invés de um líder a ser seguido pela firmeza de suas convicções, Moreau apresenta Hitler como um sujeito inescrupuloso e sedento por poder.

Nas 68 ilustrações que são acompanhadas pelos trechos correspondentes de Mein Kampf, observamos uma caricatura do ditador alemão, satirizando detalhes de sua trajetória pessoal e ridicularizando suas ideias de grandeza. Mais importante, contudo, é o caráter de denúncia que os quadrinhos apresentam: Moreau ressalta que Hitler e o nazismo representam um perigo, tendo, inclusive, contribuído decisivamente para a eclosão da Segunda Guerra Mundial.

Moreau viveu para ver a queda de Hitler e a destruição do nazismo na Alemanha. Mas o autoritarismo continuou a perseguí-lo. Em 1962, um golpe militar ocorrido na Argentina o obrigou a ser novamente um fugitivo. Ele retornou à Suíça, onde residiu até morrer, em 1988.

Você pode acompanhar a sátira completa elaborada por Carl Meffert/Clemént Moreau abaixo.

Luís Rafael Araújo Corrêa é professor do Colégio Pedro II e Doutor em História Social pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Autor de artigos e livros sobre História, como a obra Feitiço Caboclo: um índio mandingueiro condenado pela Inquisição.

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