Miguel León-Portilla: recuperando a voz dos vencidos na História

História em Rede
4 min readOct 8, 2019

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Outubro se inicia com a perda do grande historiador Miguel León-Portilla. Especialista na história dos povos nativos da Mesoamérica, Portilla deixou um importante legado, influenciando diferentes gerações de pesquisadores. Profundo conhecedor da filosofia e do idioma nahuátl, o intelectual faleceu no primeiro dia do mês, aos 93 anos. Professor emérito na Universidade Autônoma do México (UNAM), Portilla obteve grande reconhecimento por seus estudos, que buscavam ir além da lógica eurocêntrica tão persistente na historiografia sobre a Conquista e a colonização da América. E, sem dúvidas, este foi o grande mérito de sua bem sucedida carreira acadêmica e profissional: reconhecer a importância e o papel dos diferentes grupos indígenas na História, superando o discurso oficial dos colonizadores. Esta perspectiva ganhou grande repercussão, influenciando o surgimento de diversos estudos que seguiam o mesmo caminho para outras realidades.

Neste artigo, prestamos nossa homenagem a este importante intelectual, apresentando quatro de suas obras mais significativas.

1) A Visão dos Vencidos: a tragédia da Conquista narradas pelos astecas (1959)

O livro mais conhecido de Miguel León-Portilla, tendo sido traduzido em diferentes idiomas, “A Visão dos Vencidos” é uma obra fundamental. O autor propõe uma inversão na lógica eurocêntrica que sempre predominou nos estudos sobre a Conquista da América, apresentando-a a partir do ponto de vista daqueles que foram conquistados. Reunindo vários documentos sobre o período, Portilla recupera a voz dos astecas, permitindo uma visão mais complexa sobre esse processo tão trágico quanto importante para a História Moderna. O livro, por vezes, chegou a ser usado como exemplo de uma História que recaía no mesmo tipo de erro do eurocentrismo: ao substituir os vencedores pelos vencidos, continuava a ser privilegiada uma perspectiva em detrimento de outras. Contudo, esta nunca foi a intenção de Portilla, mas sim recuperar e redimensionar a visão dos astecas nas análises históricas, o que foi, de fato, uma importante inovação para a época.

2) Los Antiguos Mexicanos a través de sus Crónicas y Cantares (1961)

Neste livro, Portilla reuniu os testemunhos dos antigos mexicanos, dando voz aos povos nativos da América. Conferindo protagonismo aos indígenas, o autor traduziu do nahuátl diferentes crônicas, poemas e cantares, constituindo uma fonte importante para quem estuda a história mexicana anterior à Conquista espanhola. Apresentando e contextualizando os documentos reunidos na obra, Portilla propicia o entendimento da cultura, da visão de mundo e dos ideais pertinentes aos mexicas.

3) Toltecáyotl: aspectos de la cultura nahuátl (1980)

Toltecáyotl é uma palavra derivada do nahuátl e que era usada pelos nahuas para fazer referência aos toltecas, que constituíram uma civilização que precedeu a dos astecas no México. No entanto, mais do que isso, essa palavra remete a um importante conceito segundo o qual os nahuas compreendiam o legado cultural dos toltecas. Recuperando esta noção que considera essencial para compreender o mundo pré-hispânico, Portilla utiliza o Toltecáyotl como fio condutor para desvendar a cultura nahuátl e ressaltar as intensas relações que ela manteve com outras culturas da Mesoamérica.

4) Literaturas Indígenas de México (1992)

Em outra obra fundamental, Miguel León-Portilla ressalta que apesar dos dramas da Conquista e da marginalização subjacente ao processo de colonização, a literatura indígena continuou viva. Incorporando os problemas decorrentes do novo contexto, a literatura manteve a sua relevância para os nativos, constituindo uma fonte riquíssima para entender a perspectiva de diferentes etnias em relação à ordem colonial que se construía.

Luís Rafael Araújo Corrêa é professor do Colégio Pedro II e Doutor em História Social pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Autor de artigos e livros sobre História, como a obra Feitiço Caboclo: um índio mandingueiro condenado pela Inquisição.

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