O Dia em que o Super-Homem Acabou com a Segunda Guerra Mundial

História em Rede
8 min readMar 15, 2019

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Após a Grande Depressão, os EUA passavam por um processo de recuperação econômica e se apegaram a uma política isolacionista. Quando a Segunda Guerra Mundial explodiu na Europa, o clima do país era de não-envolvimento em uma guerra distante, custosa e que não dizia respeito à América. O governo Roosevelt, entretanto, via que o envolvimento do país no evento seria uma questão de tempo.

Paralelamente, uma inovação nos quadrinhos norte-americanos rompe com a inflação de heróis que abundavam as histórias em quadrinhos na década de 1930. Das mãos de Joe Shuster e Jerry Siegel surge o primeiro super-herói. Dotado de poderes sobre-humanos e um forte senso de justiça, o Super-Homem emerge como um símbolo do ideal estadunidense em um momento de recuperação da confiança e da economia. Na esteira de seu sucesso surgiram muitos outros e, com o desenrolar da Guerra, os super-heróis seriam massificados e posicionados em relação ao conflito.

Capa da primeira edição da HQ “Action Comics”, na qual o Super-Homem apareceu pela primeira vez.

A sintonia dos super-heróis com a Guerra foi notável e as histórias possuíam tanta propaganda norte-americana que pareciam subsidiadas pelo governo. O apelo patriótico e a defesa dos valores estadunidenses passam a ser marcas das HQ ao longo de todo o conflito. Isso fica claro nos uniformes, nos discursos e mesmo nos nomes, sendo o Capitão América o mais emblemático. Essas representações estimulavam o nacionalismo e a mobilização da sociedade em relação ao conflito.

Mesmo antes do país entrar na Guerra, as aventuras, em geral, já giravam em torno de espionagens e de invasões ao território norte-americano por nazistas e japoneses, que eram apresentados como os inimigos da liberdade e da democracia. Além disso, a figura de Hitler foi sempre associada com a de responsável pelo conflito. Tais histórias buscavam mostrar quem eram os “bons” e os “maus” e cumpriam bem o papel de aproximar a guerra dos leitores, sinalizando que a mesma iria ao encontro dos EUA.

O alcance desses quadrinhos, desde o princípio, mostrou-se amplo, podendo ser verificado a partir da repercussão de uma história do Super-Homem publicado na revista Look em fevereiro de 1940. Na história, cujo título é "How Superman Would End the War" ("Como o Super-Homem Acabaria com a Guerra"), o homem de aço solucionava a guerra em duas páginas, capturando Hitler e Stalin e os deixando sob custódia da Liga das Nações. O Ministro da Propaganda da Alemanha nazista, Joseph Gobbels, ao ler a história, chamou o super-herói de judeu, enquanto o jornal oficial da SS classificou o judeu Jerry Siegel, um dos autores do Super-Homem, como sendo físico e intelectualmente circuncidado.

História em duas páginas na qual o Super-Homem acaba com a Segunda Guerra Mundial em duas páginas.

A história, que se tornou célebre, refletia em grande medida o posicionamento do governo norte-americano naquele momento, quando ainda não havia entrado diretamente no conflito. Até por este motivo, o Super-Homem, que pode ser visto nestes quadrinhos como uma representação dos EUA, atua como uma espécie de agente policial, quase como um mediador pela paz. Isto se faz evidente pelo fato do super-herói não agredir diretamente os seus opositores, limitando-se a inutilizar armamentos e um avião. Nem mesmo os ditadores considerados responsáveis pela guerra, Hitler e Stálin, são atacados pelo homem de aço. O Super-Homem apenas os leva à força para a sede da Liga das Nações, em Genebra, para serem julgados pelos seus crimes. Tal qual um sentinela, o herói, ao invés de realizar a justiça com as próprias mãos, atua a fim de que ela seja feita pelo órgão competente, revelando então uma posição desapaixonada em relação à questão.

O quadrinho, aliás, enfatiza a idéia de que a guerra é um problema criado pelos europeus, mas que eles próprios são incapazes de resolver sozinhos. Para que os distúrbios fossem realmente solucionados, a história destaca a necessidade de intervenção de uma força externa superior, representada neste caso pelo Super-Homem, mas que pode ser interpretada como uma clara alusão aos Estados Unidos. Nesse sentido, apesar da neutralidade adotada pelo governo norte-americano naquele momento, a HQ não deixa de chamar a atenção para a inequívoca relevância dos EUA no sistema político internacional, sugerindo que uma possível intervenção norte-americana seria um caminho para a paz. Isto fica ainda mais evidente nos comentários apresentados ao final da história, os quais informam que o homem de aço já havia solucionado outros incidentes internacionais, como uma guerra que ocorria em "algum lugar da América do Sul" e um confronto envolvendo dois generais inimigos. Ao que tudo indica, portanto, a dimensão política do país se confundiria com a própria atuação do Super-Homem ao redor do mundo.

A intervenção do Super-Homem, a propósito, está em total consonância com os pressupostos ideológicos norte-americanos. Apresentando a Alemanha e a União Soviética como totalitárias, regime no qual a população dos países segue inquestionavelmente os desígnios de seus líderes e a sociedade é fortemente militarizada, o super-herói figura como o grande defensor das liberdades individuais e da democracia em detrimento do autoritarismo. Ao mesmo tempo, a presença de Stálin, tido como um dos responsáveis pelos problemas da Europa, aponta para a oposição ao socialismo, antecipando a disputa ideológica (Capitalismo X Socialismo) que marcaria o pós-guerra. Mais do que solucionar os problemas europeus, a ação do homem de aço era uma forma de defender os valores norte-americanos no mundo.

A vinculação a estes ideais, no entanto, leva os autores da história a expressarem uma visão simplista a respeito das origens e dos motivos da Segunda Guerra Mundial. Retratados como inimigos da paz, Hitler e Stálin, que haviam assinado no ano anterior um pacto de não-agressão, são culpados por cometerem o que a HQ considera como o maior crime da História moderna: agressões injustificadas contra países indefesos. Embora seja inegável que a URSS e principalmente a Alemanha adotaram uma política agressiva que criaram um clima de tensão favorável à eclosão do conflito, a Segunda Guerra Mundial não pode ser encarada como um acontecimento isolado, restrito às ações autoritárias e belicistas de apenas duas pessoas. Ao invés disso, a guerra deve ser vista como uma conjunção de fatores historicamente construídos e relacionados a questões sociais mais amplas. Além disso, há de se destacar que, a despeito das ofensivas empreendidas pela Alemanha e pela União Soviética, o crime do qual Hitler e Stálin são acusados também foi cometido por outros países no contexto do imperialismo, o que corrobora ainda mais a idéia de que a Segunda Guerra Mundial foi muito além de ações individuais. Assim sendo, as causas da guerra apresentadas pela história devem ser entendidas, antes de tudo, como um reflexo da perspectiva ideológica norte-americana em relação ao conflito.

A história, como não poderia deixar de ser, também toca na questão referente aos ideais de superioridade racial difundidas na Alemanha nazista. Na segunda página, quando o Super-Homem suspende Hitler com uma das mãos, ele diz ao nazista que gostaria de lhe desferir um soco não-ariano em seu queixo, mas não tem tempo para isso, já que ele ainda precisava ir atrás de Stálin. Mesmo sendo uma breve menção, a história apresenta um tom crítico quanto ao assunto, condenando o racismo que vigorava na Alemanha. Tal ponto de vista não surpreende, afinal, Jerry Siegel, um dos autores do Super-Homem, era judeu e tinha bons motivos para não simpatizar com a Alemanha nazista. Mesmo assim, não deixa de causar algum estranhamento ver um personagem que se define como um homem superior aos demais criticar as teorias de superioridade racial provenientes do nazismo.

Enfim, embora de maneira sugestiva, "Como o Super-Homem Acabaria com a Guerra" funcionou como uma propaganda em prol da entrada dos EUA no conflito, além de ter reforçado os valores ideológicos norte-americanos através do personagem. A repercussão da história publicada na revista Look foi imediata, motivando, como já foi dito, uma resposta por parte do jornal oficial da SS em 25 de abril do mesmo ano, apenas dois meses após a publicação do Super-Homem. O conflito editorial precedeu, então, a participação norte-americana na Segunda Guerra Mundial. Mas não demorou muito até que o exército dos EUA se juntasse ao homem de aço neste conflito. O ataque japonês à Pearl Harbor mudou os rumos da Guerra e da política dos EUA. O presidente Roosevelt declara guerra ao Japão e, pouco depois, a Alemanha faz o mesmo contra os Estados Unidos. O impacto sobre os quadrinhos é instantâneo: seguindo o exemplo do Super-Homem, quase todos os super-heróis se alistam e vão para o campo de batalha. Contudo, ao contrário do que Jerry Siegel e Joe Shuster previram, a guerra demorou bem mais do que duas páginas para ser concluída.

Luís Rafael Araújo Corrêa é professor do Colégio Pedro II e Doutor em História Social pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Autor de artigos e livros sobre História, como a obra Feitiço Caboclo: um índio mandingueiro condenado pela Inquisição.

REFERÊNCIAS

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MARNY, Jacques. Sociologia das histórias aos quadrinhos. Portugal: Civilização Brasileira, 1970.

PARKER, R.A.C. História da segunda guerra mundial. Rio de Janeiro: Edições 70, 1989.

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