O Egito e o seu (ainda) esplêndido Patrimônio Histórico — Parte 1

História em Rede
6 min readApr 10, 2019

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Em 2018, o incêndio ocorrido no Museu Nacional, localizado no Rio de Janeiro, acendeu o alerta em relação à importância de se preservar o patrimônio histórico. Por conta do descaso e da falta de verbas, séculos de história foram consumidos pelas chamas. Mas esse não é um problema exclusivo do Brasil. O Egito, conhecido por sua riqueza histórica e cultural, também carece de políticas de preservação patrimonial mais sérias. Se é um fato que vários artefatos foram levados da África para a Europa no contexto do Imperialismo, é verdade também que muito já se perdeu em virtude do comprometimento tardio com a História. Neste artigo, conheça mais sobre o (ainda) esplêndido Patrimônio Histórico do Egito.

Sítio Arqueológico de Saqqara (Cairo)

Localizada neste sítio, a pirâmide de Saqqara, também conhecida como "pirâmide de degraus", foi a primeira a ser construída no Egito, por volta de 2630 a.C, durante a terceira dinastia faraônica.
Embora poucas informações dêem conta da sua construção, o que se sabe é que o arquiteto da pirâmide, Imhotep, a construiu para o rei Djozer. O formato da pirâmide, que muito se deve à sobreposição de diferentes mastabas (antigo túmulo egípcio), a torna singular. No passado, inclusive, os egípcios acreditavam que o rei Djozer subiria aos céus para se encontrar com os deuses através dos ditos degraus.

Museu a céu aberto de Memphis (Cairo)

Museu a céu aberto de Memphis, que foi uma das capitais do antigo Egito. A área principal remete aos resquícios do Templo de Ptah, um dos deuses mais proeminentes da antiga cidade e adorado como criador da vida.
Apesar de ter sido alçado à condição de Patrimônio Mundial da Humanidade em 1979, é uma pena ver que não há um grande esforço de preservação do material em exposição, tão valioso do ponto de vista histórico.
A única parte coberta do museu abriga o que sobrou de um enorme colosso construído em homenagem à Ramsés II, que foi um dos principais faraós do Egito. A importância de Ramsés II fica evidente ainda pela presença de uma estátua e de uma esfinge dedicadas a ele. Conhecido como o Grande, Ramsés II governou entre 1279 a.C. e 1213 a.C., um dos mais longevos da História. Enquanto esteve na posição mais destacada do Egito, Ramsés II foi responsável pela expansão do Império, tendo se envolvido ainda em contendas militares contra os hititas.

Necrópole de Gizé (Cairo)

Necrópole de Gizé, onde estão localizadas as famosas pirâmides de Queóps, Quéfren e Miquerinos. As pirâmides foram construídas a cerca de 4500 anos e são das poucas que continuam intactas até hoje. Quéops, a maior delas, possui cerca de 138 metros de altura e os registros dão conta que mais de 100.000 homens trabalharam na sua edificação, que levou aproximadamente 30 anos. E, de fato, as pirâmides impressionam pela incrível arquitetura. Ainda assim, o que restou não chega a ser nem sombra do que era originalmente. Construídas para servirem como túmulos aos faraós egípcios, as pirâmides abrigavam não apenas os restos mumificados do faraó, mas também tesouros e objetos pessoais. Infelizmente, quase todos os itens, mesmo as múmias, foram roubados por saqueadores ao longo da História, que iam em busca de riqueza fácil e ignoravam os perigos das armadilhas preparadas para proteger o interior das pirâmides. Ficou ao menos a grandiosidade destas que são uma das maravilhas da antiguidade.

Esfinge, na Necrópole de Gizé (Cairo)

Apesar da palavra esfinge derivar do grego e estar associada à criatura mitológica que perturbava os incautos com os seus enigmas, entre os egípcios a esfinge significava a combinação de sabedoria e força. Não por acaso, muitos faraós foram representados nesta forma, como Queóps, retratado na célebre Esfinge de Gizé.

Museu Egípcio (Cairo)

Com peças de diferentes épocas do Egito antigo, o museu conta com dois andares, sendo que um deles está reservado apenas à Tutankamon. As peças são realmente impressionantes e a ala dos sarcófagos se destaca, apresentando diversas urnas funerárias e múmias bem conservadas. É uma pena, porém, que o museu seja tão mal cuidado e preservado. As diferentes peças estão sucessivamente empilhadas e dispostas sem muito cuidado, mal havendo tabuletas explicativas. Além disso, fora o andar de Tutankamon, não há uma organização temática das obras, comprometendo a experiência dos visitantes. É bem verdade que um novo Museu está em construção, mas isso não justifica uma política de preservação tão desleixada. O novo museu, aliás, ficará pronto em 2 anos, dizem alguns egípcios. Outros arriscam a dizer 3 anos. Se formos nos guiar pela atual política de preservação, é bom se preparar para alguns anos mais...

Igreja de Abu Serga (Cairo)

Igreja de Abu Serga ou Santo Sérgio, localizada no bairro copta de Cairo. Embora o Egito seja um país majoritariamente muçulmano, cerca de 20% da população professa o cristianismo ortodoxo, chamado de copta em virtude das especificidades do cristianismo no Egito. A disseminação do cristianismo no Egito foi rápida e obteve muitos adeptos no início da era cristã, quando a região estava sob domínio do Império Romano. O surgimento do cristianismo copta remonta ao Concílio de Calcedônia, de 451, quando o monofisismo (interpretação teológica que reconhece unicamente a natureza divina em Jesus Cristo) foi rejeitado em nome do diofisismo (interpretação teológica que reconhece em Jesus Cristo a combinação da natureza humana e da divina). Sem aceitar as disposições do Concílio, o Papa Dióscoro de Alexandria sustentou o ponto de vista monofisista e separou a Igreja de Alexandria, culminando o cisma que originou o cristianismo ortodoxo oriental.
Para os fiéis do cristianismo copta, a igreja de Abu Serga guarda importância especial por conta de seu simbolismo. Segundo a tradição, a igreja foi construída sobre o local onde Jesus Cristo e a sua família viveram quando estiveram no Egito. A fuga para o Egito é mencionada no Evangelho de Mateus, quando José rumou para o Egito com sua família, incluindo Cristo recém-nascido, por temer as notícias de que o rei Heródes mandaria assassinar os bebês de Belém. A igreja hoje é considerada sagrada pelos cristãos no Egito, sendo um importante local de culto.

Mesquita de Mohammed Ali (Cairo)

Construída no início do século XIX a mando do então governador do Egito, naquela altura uma província do Império Otomano, a Mesquita se destaca por sua grandiosidade e refinamento. O objetivo do governador Mohammed Ali era recuperar as glórias de uma região considerada atrasada no interior do império. E, dentre as suas diversas realizações bem sucedidas, a Mesquita que leva o seu nome, e onde está enterrado, foi a materialização do seu intento.

Luís Rafael Araújo Corrêa é professor do Colégio Pedro II e Doutor em História Social pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Autor de artigos e livros sobre História, como a obra Feitiço Caboclo: um índio mandingueiro condenado pela Inquisição.

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