O Homem dos Quarenta Escudos e o espírito do Iluminismo em Voltaire
Em “O Homem dos Quarenta Escudos”, Voltaire narra uma história que aborda criticamente diversos temas caros a sua época. Escrita em 1768, a obra parte do estabelecimento de um novo sistema político-econômico na França, que tinha como principal marca a imposição de um imposto único atingindo apenas as atividades agrícolas. Nesse contexto, o homem dos quarenta escudos — nome que advém da suposta renda média de um agricultor francês, calculada a partir da divisão da renda nacional pelo número de habitantes do país, vinte milhões na época — lendo e conversando com um amigo, geômetra por formação, começa a refletir sobre esse sistema que retira metade de seus parcos ganhos, mas isenta outros que lucravam centenas de vezes mais do que ele ou aqueles que nada faziam além de rezar. Tamanha desigualdade o leva a criticar o que ele considerava como uma injustiça.
Na interessante trajetória desse homem, que tem o esclarecimento como ponto de chegada, o autor deixa de forma bastante clara seu pensamento e suas convicções, as quais muitas vezes se confundem com as do próprio personagem-título. Tendo isso em vista, buscaremos analisar esta obra a fim de observar como os pressupostos iluministas estão presentes no texto de Voltaire e em que medida suas idéias se inserem no âmbito da passagem do mundo litúrgico e tradicional do Antigo Regime para o mundo moderno.
O século XVIII, também chamado de século das luzes, período em que Voltaire viveu e escreveu suas obras, vê, pouco a pouco, a contestação da antiga ordem, bem como das instituições tradicionais. Em meio a isso, um novo sistema de valores vai ganhando forma. A Igreja, uma instituição que mais do que qualquer outra representava a tradição, passou a ser um dos principais alvos de críticas, sobretudo em relação à autoridade que sempre teve em relação às explicações das coisas do mundo, tornadas sempre teológicas.
Esse dogmatismo é duramente atacado por Voltaire em várias de suas obras, não sendo diferente em “O Homem dos Quarenta Escudos”. O autor, desde o princípio, se opõe a absolutização de um determinado ponto de vista, não perdendo a oportunidade de contestar a rigidez típica do pensamento religioso. Nesse sentido, fica bastante evidente ao longo do texto que seria a razão e não a religião que deveria presidir as discussões: em uma ceia na casa do homem dos quarenta escudos, pessoas dos mais diversos credos estiveram presentes, de modo que “a ceia se prolongou bastante, e no entanto não se discutiu sobre religião, como se nenhum dos convivas jamais tivesse alguma; o que quer dizer que nos tornamos polidos”. Podemos considerar esse “tornar-se polido” que aparece no trecho justamente como colocar a razão acima das diferenças religiosas, revelando uma ideia de tolerância religiosa que é cara a Voltaire.
Se o autor demonstra aversão a um dogmatismo religioso, o mesmo pode ser dito a um dogmatismo de cunho filosófico. Isso evidencia-se nas suas contundentes e insistentes críticas aos sistemas, que é, inclusive, uma de suas motivações para escrever a história, já que o novo sistema tributário na França é o fio condutor da narrativa. Voltaire chega a dedicar um capítulo inteiro para discutir formulações sistemáticas de pensamento. Embora em posição oposta às proposições teológicas, os sistemas são vistos por ele como a razão levada ao extremo, sendo marcada pela mesma rigidez. Não por acaso, ele aconselha a desconfiar “toda a vida, dos testamentos e dos sistemas”. Por isso, fica claro que Voltaire compreende o conhecimento como uma construção que advém principalmente da experiência, uma grande novidade em relação ao Antigo Regime.
Aliás, um traço interessante do conhecimento produzido pelos iluministas é a motivação de produzir algo novo e não simplesmente a reprodução dos antigos. Voltaire, no livro que analisamos, destaca isso em diversas passagens, sendo notável quando o personagem que dá o nome a obra “felicita-se por ter nascido numa época em que a razão humana começa a aperfeiçoar-se”, em que as novas discussões e os escritos desses letrados são responsáveis pelos “progressos do espírito humano”. Essa clara convicção de que o conhecimento está se renovando a partir das discussões do presente, não se limitando a autoridade dos antigos, não significa, entretanto, rejeitar os clássicos: eles continuam sendo referência fundamental para os ilustrados — prova disso é que Voltaire remete aos mesmos em diversas passagens de seu livro. Predomina, porém, a ideia de que podem superá-los justamente por serem sustentados por esses clássicos.
É interessante perceber como isso se relaciona com uma nova concepção de História. A concepção de que as luzes estão produzindo algo novo, diferente do que havia e que estão em constante aperfeiçoamento, deixa evidente como o pensamento de Voltaire está imbuído das idéias de progresso. Rompe-se assim com a tradição, tão cara ao mundo litúrgico do Antigo Regime que está alicerçado em padrões acabados. A História, não mais refém à tradição dos antigos, é vista como algo que está progredindo, com uma distinção bem clara entre o passado, o presente e o futuro.
O conceito de felicidade, que aparece principalmente no diálogo entre o homem dos quarenta escudos e seu amigo geômetra, também exprime bem o que estamos tentando mostrar: o primeiro, indignado com o novo sistema tributário, que lhe retirava metade dos seus rendimentos, afirma que, nessa situação, ele não poderá ser feliz, já que está limitado a uma condição penuriosa. O que se percebe então é que na visão do personagem, que, é importante lembrar, se confunde com a do próprio autor, o ideal de felicidade se relaciona diretamente com progressos verificados ao longo da vida. Aliás, a própria trajetória de sucesso do personagem, que de pequeno agricultor se torna em uma pessoa rica e dotado de razão, é ilustrativa nesse sentido, revelando então a concretização desse ideal de felicidade.
Quando estamos falando do Iluminismo, devemos compreendê-lo como um movimento que propagou, no século XVIII, um novo sistema de valores no Velho Continente. No entanto, é fundamental atentar para a diversidade de reações que marcaram a referida expansão, afastando uma idéia tradicional que a toma como uniforme e homogênea. Na obra “O Homem dos Quarenta Escudos”, é possível perceber a clara consciência que Voltaire tinha do alcance e da repercussão das luzes na Europa: no capítulo XIV ele explicita isso muito bem, delineando a trajetória da Razão pelo continente, que “viaja por pequenas etapas, do norte para o sul, com suas duas amigas íntimas, a Experiência e a Tolerância”. O autor vai comentando a penetração das mesmas em cada região da Europa, desde as áreas que desde o princípio tentaram rechaçá-las, como na Itália e na Península Ibérica, a outras que a receberam bem.
O que Voltaire está mostrando em tal passagem é aquilo que Franco Venturi chama de “geografia do iluminismo”, ou seja, realidades regionais diversas que receberam essas luzes de formas diferentes. Não seria demais fazermos referência também a Darnton, que em “O Iluminismo como Negócio”, atenta para a mesma coisa ao mostrar as transações envolvendo a Enciclopédia nas várias partes da Europa, revelando por meio das mesmas o alcance do Iluminismo: através destes dados, mediante a quantidade de enciclopédias vendida a cada uma desses lugares e a identificação dos compradores, ele demonstra como a recepção das idéias iluministas foi diferente nas várias regiões, inclusive dentro da própria França.
Consciente do alcance e da repercussão dessas luzes, Voltaire deixa patente também que estava ciente do poder que a opinião pública poderia trazer aos ilustrados. A propósito, vale à pena destacar o momento em que o filósofo atentou para tal potencialidade. Tomando conhecimento do caso de Jean Calas, protestante que foi alvo de um julgamento preconceituoso na França católica por professar a fé protestante, Voltaire se sensibiliza e acaba por tomar partido da família ao acreditar na inocência de Jean Calas, acusado de assassinar o próprio filho. Ele passa então a defender a reabertura do caso, usando para tal o único recurso que dispunha, o seu status enquanto literato, permitindo-lhe então levar isso a público e tentar fazer com que as pessoas tomassem partido nesse caso injusto. Aos poucos, Voltaire foi sensibilizando e mobilizando outras pessoas a aderiram a sua causa através de escritos e peças teatrais e, indo até as últimas conseqüências, consegue, por fim, o seu objetivo, em 1762. Ao longo de todo esse caso, o escritor percebeu que a opinião pública, quando influenciada por aquele que detém o que Bourdieu chamou de capital simbólico, pode vir a tornar-se uma fonte de poder. No entanto, é importante considerar que não basta apenas isso, é preciso também que essa opinião pública exista e que seja capaz de compreender o que é dito para que, assim, tome partido.
Em “O Homem dos Quarenta Escudos”, Voltaire deixa claro que para essa opinião pública existir, é necessário que as pessoas sejam capazes de refletir por si só e entender o que se diz. Nesse sentido, o homem dos quarenta escudos é emblemático: através do contato com o conhecimento, ele passou a refletir sobre a situação a sua volta e entender melhor as coisas, se indignando quanto ao que considerava injusto ou pouco razoável. Já consciente do poder que dispunha, não sendo à toa então às referências que Voltaire faz ao caso Calas, aqui também ele se dirige à opinião pública a fim de que tomem partido de suas causas. Carregado de ironia, a história do homem dos quarenta escudos é uma crítica ao novo sistema tributário: ao mostrar a condição desfavorável de um agricultor que poderia representar qualquer outro de sua época, o autor busca fazer com que as pessoas vejam o quanto ele é injusto. A Justiça, reservada aos que se insurgiam contra à injustiça da tributação, também não é poupada. Voltaire aponta para a incoerência da mesma, ressaltando a desproporcionalidade entre delitos e penas. Como ele bem destaca, “as leis imitam seus preconceitos; as punições públicas são tão cruéis quanto as vinganças particulares, e os atos da sua razão não são menos impiedosos que os das suas paixões”. Tentando mexer com a sensibilidade das pessoas em prol de seus argumentos, ele anota: “fui chamado, como testemunha, contra um marceneiro que foi submetido à tortura e estava inocente. Vi-o desmaiar no suplício; ouvi estalarem-lhe os ossos; ainda ouço os seus gemidos e gritos; eles me perseguem, eu choro de piedade e tremo de horror”.
Esses pontos acabam por remeter a um aspecto evidente do princípio ao fim em “O Homem dos Quarenta Escudos”, que é a crítica que Voltaire faz ao Estado, sobretudo em relação a seu caráter absoluto. As críticas que destina ao novo sistema tributário e à Justiça, vistas acima, não deixam de revelar uma carga contrária ao absolutismo, que decide e age de forma despótica. Há uma passagem que exprime, com a ironia típica de Voltaire, sua oposição às arbitrariedades do poder: “Um de seus meirinhos veio à minha casa por ocasião da última guerra; pediu-me, por minha quota parte, três sesteiros de trigo e um saco de favas, num total de vinte escudos, para sustentar a guerra que faziam e cuja razão eu jamais soubera, tendo apenas ouvido dizer que, na tal guerra, nada havia a ganhar para o meu país, e muito a perder. Como então eu não tivesse nem trigo, nem favas, nem dinheiro, o legislativo e o executivo me puseram na cadeia; e fizeram a guerra como foi possível”. Esse trecho elucida bem o que estamos querendo dizer ao mostrar a monopolização da política nas mãos do soberano, de maneira que, como destacou Koselleck em seu livro “Crítica e Crise”, o poder absoluto do soberano advém justamente do silêncio imposto aos súditos.
Todavia, embora vivam em uma sociedade em que os súditos devem se calar, não podemos esquecer que a consciência individual é livre. Isso implica dizer que, mesmo que estejam impossibilitados de se manifestarem publicamente, pode haver insatisfação na consciência individual, o que seria o primeiro passo para que a crítica se desenvolva. No livro, o homem dos quarenta escudos exemplifica isso bem: ao ter contato com a filosofia por intermédio do seu vizinho geômetra, ele começa “a refletir, coisa bastante rara”. A partir da reflexão, ele se insatisfaz com diversas situações a sua volta, sobretudo com o novo sistema tributário, o que o leva a críticas em relação ao mesmo. Quando o personagem enriquece e se torna um ilustrado, passando a ser conhecido como senhor André, ele passa a oferecer jantares em sua casa, onde as mais variadas discussões, a luz da razão, são feitas entre os presentes. Esse ponto destacado por Voltaire chama a atenção para a passagem da reflexão do foro individual para as discussões nos espaços privados, um aspecto muito bem destacado por Koselleck quando analisa as lojas maçônicas.
Assim como a maioria das obras escritas por Voltaire, “O Homem dos Quarenta Escudos” é uma história em que diversas críticas àquela sociedade tradicional de Antigo Regime podem ser verificadas. Mais do que isso, esse texto tem o grande mérito de revelar diversos traços do pensamento do autor, que na maioria das vezes expressa suas idéias por meio das falas de seu personagem principal, o homem dos quarenta escudos. Aqui, buscamos analisar o livro considerando esses dois pontos, contextualizando suas críticas de acordo com seu pensamento e as inserindo em uma dimensão mais ampla, o Iluminismo. Tentamos demonstrar, enfim, como Voltaire percebia esse movimento de idéias no século XVIII, o que suas idéias representaram para a sua época e como as luzes estiveram presentes na pena de um dos maiores e mais célebres ilustrados.
Luís Rafael Araújo Corrêa é professor do Colégio Pedro II e Doutor em História Social pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Autor de artigos e livros sobre História, como a obra Feitiço Caboclo: um índio mandingueiro condenado pela Inquisição.
Referências
DARNTON, Robert. O Iluminismo como negócio. São Paulo, Cia. das Letras, 1996.
HAZARD, Paul. A crise da consciência europeia (1680-1715). Lisboa: Cosmos, 1948.
KOSELLECK, Reinhart. Crítica e crise: uma contribuição à patogênese do mundo burguês. Rio de Janeiro: UERJ/Contraponto, 1999.
VENTURI, Franco. Utopia e Reforma no Iluminismo. Bauru: EDUSC, 2003.
VOLTAIRE. O homem dos quarenta escudos. São Paulo: Escala, 2007.