O Passado em 3D: a Computação Gráfica a serviço da História
Quem pensa que a pesquisa em História está limitada a documentos, arquivos ou antiguidades deveria rever os seus conceitos. Não é de hoje que essa área do conhecimento tem se valido do uso da tecnologia em busca de uma interpretação mais coerente do passado. Desde a digitalização de acervos, que facilitou o acesso a fontes históricas em diversas partes do planeta, até o uso da internet como meio de divulgação de estudos outrora restritos às universidades, a tecnologia é um recurso cada vez mais recorrente entre os pesquisadores. Uma das ferramentas tecnológicas que tem produzido resultados com grande relevância para a História é a computação gráfica. Por meio de reconstruções elaboradas digitalmente, diversos cenários históricos ganharam cores e formas tridimensionais, dando vida ao conhecimento levantado pelos pesquisadores e aproximando o público de diferentes momentos do passado.
Um exemplo muito bom desta interação é o projeto Paisagens Pitorescas, criado e desenvolvido por professores do IFMG (Instituto Federal de Minas Gerais). O projeto, cujo objetivo é comparar o presente e o passado da cidade de Ouro Preto, utiliza a computação gráfica para reconstruir a antiga Vila Rica. Contando com a supervisão do professor Alex Bohrer, a iniciativa recorreu a fontes históricas da época e já reconstituiu partes da cidade no século XVIII, como a icônica Praça Tiradentes. O resultado é ótimo e pode ser conferido abaixo:
Outro trabalho excepcional neste sentido é o Bretez Project, responsável por reconstruir Paris no século XVIII. Inspirando-se no Mapa Turgot-Bretez, o qual data de 1739 e apresenta detalhadamente a disposição da cidade parisiense, uma equipe de historiadores, sociólogos, musicólogos e especialistas em computação gráfica fazem a capital da França renascer digitalmente. E a paisagem urbana não foi o único elemento a ser reconstituído. A musicóloga Mylène Pardoen recriou o som ambiente de Paris no século XVIII, baseando-se em documentos da época e em estudos de historiadores como Alain Corbin e Arlette Farge. O resultado é surpreendente, sendo possível acompanhar desde o burburinho do centro urbano até os sons às margens do rio Sena. O vídeo é centrado no distrito de Grand Chatêlet, proporcionando uma incrível experiência:
A computação gráfica e a História também se encontram no projeto Relieve History in 3D. Conduzido por uma equipe de entusiastas de diferentes áreas do conhecimento, mas que tem a História como ponto de coesão, a iniciativa objetiva reconstituir cenários de diferentes épocas. Atualmente, o grupo se dedica a uma ambiciosa reconstrução da Roma Antiga. Os primeiros resultados da empreitada impressionam, com um ótimo panorama da capital do Império Romano:
Apesar de iniciativas promissoras, o diálogo entre a História e a computação gráfica ainda tem um longo caminho a percorrer. Demandando uma pesquisa minuciosa e um detalhado trabalho gráfico, a História em 3D é uma tarefa árdua, multidisciplinar e de longo prazo, sobretudo por conta do rigor histórico. Além disso, há o custo envolvido, em geral elevado. Tais empecilhos, porém, não tem impedido o desenvolvimento de diferentes projetos. E os resultados animadores deixam claro todo o potencial da História em 3D.
Do ponto de vista da História, as reconstruções elaboradas com a ajuda da computação gráfica podem desempenhar um papel importante em aproximar o conhecimento pertinente a diferentes contextos ao grande público. Além disso, a História em 3D surge como um instrumento interessante a ser usado pelos professores em sala de aula. Seduzindo pelos sentidos, as reconstituições digitais podem dinamizar as aulas de História e despertar o interesse dos alunos do Ensino Básico. Obviamente, é preciso o cuidado para não perder de vista que não se trata da verdade, mas de uma interpretação do passado a partir do presente, sujeito a tantas limitações como qualquer outra interpretação histórica. Mas usada criteriosamente, a computação gráfica pode ser um valioso recurso didático nas aulas de História.
Luís Rafael Araújo Corrêa é professor do Colégio Pedro II e Doutor em História Social pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Autor de artigos e livros sobre História, como a obra Feitiço Caboclo: um índio mandingueiro condenado pela Inquisição.