O pesquisador brasileiro que se dedica à História dos Vikings
Amplamente representados na indústria do entretenimento, não é exagero dizer que há uma parcela considerável do público brasileiro interessado pela temática viking. Recentemente, a série televisiva Vikings, com grande audiência no país, confirmou essa identificação. No entanto, é bem verdade também que a história dos povos escandinavos pode parecer distante para muitos, principalmente em virtude das diferenças culturais.
Não é o caso do professor Johnni Langer. Historiador por formação, Langer vem, dia após dia, estreitando laços entre os povos nórdicos e o Brasil a partir de suas pesquisas históricas sobre os Vikings. Dono de um currículo invejável, que inclui doutorado na Universidade Federal do Paraná e pós-doutorado sob a supervisão de Hilário Franco Júnior, prestigiado medievalista brasileiro, Johnni Langer é hoje uma das principais referências em língua portuguesa para quem se interessa pela história dos Vikings. E também um dos grandes incentivadores destes estudos no Brasil. Como professor da Universidade Federal da Paraíba, ele orienta uma série de jovens pesquisadores que produzem conhecimento sobre os povos escandinavos no âmbito acadêmico. Além disso, é extremamente atuante na divulgação destas pesquisas a partir do NEVE (Núcleo de Estudos Vikings e Escandinavos).
Os estudos de Johnni Langer, a propósito, são bem amplos. Da arqueologia na região nórdica à mitologia escandinava, o historiador brasileiro contempla uma variedade significativa de temáticas sobre estes povos. E a preocupação em difundir tais conhecimentos ao grande público também se faz evidente. Um de seus livros, “Dicionário de História e Cultura da Era Viking”, é a principal porta de entrada aos que buscam compreender melhor estes povos a partir de uma perspectiva histórica.
Conversamos com o professor Johnni Langer sobre a História dos Vikings. Enriquecedora, o pesquisador esclareceu elementos importantes sobre estes povos. Confira a entrevista:
História em Rede — Bom dia professor Johnni Langer, é uma satisfação ter essa conversa que esclarecerá bastante os leitores do “História em Rede” sobre os povos escandinavos. Os Vikings, como são mais conhecidos, tem sido representados largamente na mídia ao longo do tempo, sobretudo nos últimos anos. De filmes como Beowulf (2007) ao Thor dos quadrinhos de super-heróis, passando pela série televisiva Vikings (2013-) e por jogos de video game como Vikings: Wolves of Midgard (2017), vários são os produtos que exploram essa temática. Por se inserirem dentro de uma indústria cultural, mais preocupados em agradar o grande público, nem sempre elas são fidedignas do ponto de vista histórico. Até que ponto essas representações reforçam estereótipos a respeito dos Vikings?
Johnni Langer — A mídia e as artes contemporâneas de maneira geral reforçam diversas formas de representações sobre o passado nórdico, algumas são tradicionais e foram criadas durante o Oitocentos, outras são novas. Ambas convergem para uma relação dinâmica com o referencial histórico, pois os estereótipos também são baseados muitas vezes no conhecimento acadêmico de cada época, enquanto outros são originados do conhecimento popular sobre o passado. Alguns equipamentos de batalha, por exemplo, durante o século XIX, pelo desconhecimento pleno da cultura material da Era Viking, geralmente era representados como sendo de metal (escudos), já no século XX com o avanço da Arqueologia ele passaram a ser representados como sendo de madeira. Atualmente a série Vikings utiliza amplamente excelentes reproduções de espadas e lanças, mas ao mesmo tempo, insere equipamento equivocados, como o uso anacrônico de balestras pelos nórdicos. Outros estereótipos seguem uma tradição icônica baseada na literatura e mitologia medieval, mesclando mito e História, como o suposto uso de taças fabricadas a partir de crânios dos inimigos — fartamente representada na arte oitocentista e ressurgindo timidamente na atualidade com os quadrinhos (Asterix e os vikings) e mesmo na série Vikings. O caso mais famoso de estereótipo visual é certamente o elmo com chifres, variável conforme a representação artística e midiática, mas nunca desaparecendo completamente do imaginário popular.
História em Rede — Nas redes sociais, é muito comum se deparar com postagens que mencionam o fato dos Vikings terem sido os primeiros europeus a chegarem até a América. Muitas delas, inclusive, chegam a imaginar os contatos com as populações nativas. A partir das pesquisas mais recentes, qual foi a relação dos escandinavos com o continente americano?
Johnni Langer — Esse é uma tema apaixonante. De um lado temos representações artísticas, imaginárias e fantásticas, criadas durante o Oitocentos e que se propagam até hoje — a sua base são as sagas islandesas relatando as viagens pelo Atlântico Norte e muitas vezes foram “respaldadas” por fraudes epigráficas — dezenas de pedras com inscrições rúnicas que são frequentemente encontradas até nossos dias, somadas à diversos romances ficcionais, filmes, feriados nacionais e outros meios sociais de criar um passado romantizado com referenciais nacionalistas. Ao mesmo tempo, desde os anos 1950 temos pesquisas arqueológicas sólidas que revelam uma presença nórdica efetiva no solo norte-americano, mantendo contatos culturais com os nativos e contatos com a colônia nórdica presente na Groelândia, esta última mantendo-se ativa até o fim do medievo. O que se sabe efetivamente é que a experiência colonizadora nórdica no continente norte-americano foi muito curta e ainda está repleta de questões e problemas.
História em Rede — Um de seus estudos está relacionado ao mito do Dragão na Escandinávia Medieval. Poderia nos falar um pouco a respeito dessa pesquisa tão interessante?
Johnni Langer — Esta pesquisa tratou do tema do mito do dragão em vários tipos de fontes, especialmente iconográficas, presentes em monumentos pagãos e cristãos, e literários, como as sagas islandesas e as Eddas*. Verifiquei as transformações morfológicas deste monstro e suas mudanças de significado, além das interpretações de sua continuidade tanto no passado pré-cristão quanto de suas ressignificações para o contexto da nova religião. Em ambos os contextos, as imagens do dragão estavam intimamente relacionadas com a figura do herói, altamente valorizada pela sociedade nórdica.
*Edda: nome dado a duas coletâneas de textos do século XIII, encontradas na Islândia, e que possibilitam o estudo de histórias a respeito dos personagens da mitologia nórdica e germânica.
História em Rede — O currículo escolar brasileiro referente à História não dá a devida atenção à Idade Média. Em parte, isso se explica pela estrutura em que ele está estabelecido, não havendo uma sequência de estudos entre o ensino fundamental e o médio. Neste esquema, os Vikings costumam ser ignorados ou apresentados meramente como bárbaros que saqueavam regiões da Europa. De que maneira um estudo renovado a respeito dos Vikings contribuiria para uma melhor compreensão dos alunos em relação à Idade Média?
Johnni Langer — O ensino de história com conteúdo sobre os “vikings” deveria partir primeiramente de uma desconstrução sobre os estereótipos e as imagens canônicas criadas pelas mídias e artes. Refletir sobre o termo viking e suas interpretações etimológicas, ocupacionais, étnicas e nacionalistas. Em seguida, uma reflexão mais abrangente das conexões culturais, históricas e econômicas das populações nórdicas com a Eurásia durante o medievo — demonstrando as diversas imbricamentos, rotas comerciais, intercâmbios políticos e religiosos, etc, desconstruindo a imagem dos “vikings” enquanto um “povo” apenas guerreiro e destruidor. Eles foram responsáveis por criar cidades, colônias, possuíam uma cultura material e arte esplêndida e “até mesmo” tecnologias — o conhecimento náutico e astronômico dos nórdicos, tanto de construção naval quanto de orientação por alto mar, por exemplo, — era extremamente avançado para a época. Somente esse tema fornece uma aula muito interessante sobre ciência e tecnologia no medievo, desconstruindo a noção extremamente difundida deste período como sendo de trevas ou de obscurantismo religioso. Quanto aos livros didáticos, existem muitas possibilidades de tratar temas congêneres, usando recursos como infográficos de visualização rápida e informações textuais e iconográficas de qualidade. Alguns recursos didáticos praticamente desconhecidos no Brasil, como o Living History, já foram utilizados no ensino fundamental de João Pessoa pelo NEVE (como uma reconstituição de mercado nórdico de Birka da Era Viking) — o resultado foi uma visão diferenciada do cotidiano medieval para os alunos, aproximando a nossa época e costumes com uma nova visão sobre a “Era das trevas”.
História em Rede — A pesquisa em História por vezes se mostra árdua, principalmente em relação a dificuldade em acessar fontes documentais. Para quem se dedica à História escandinava, imagino que essas dificuldades sejam ainda maiores. Como um estudioso brasileiro realiza suas pesquisas sobre os Vikings?
Johnni Langer — O acesso às fontes primárias nórdicas, hoje em dia, é muito mais fácil do que nos anos 1990, quando teve início a Nova Escandinavística Brasileira. Existem dezenas de fontes traduzidas para muitas línguas neolatinas e germânicas em geral. A internet fornece diversos recursos, banco de dados, portais e ferramentas para investigações. Muitos pesquisadores internacionais de ponta são extremamente abertos a diálogos e colaborações em contato virtual. O passo inicial é ter domínio instrumental em inglês, recurso básico da Escandinavística. Com o tempo e o avanço nas investigações, o pesquisador tende necessariamente a estudar as linguagens originais das fontes (como o nórdico antigo, latim, anglo-saxão), a ter contato com as críticas documentais e referenciais teórico-metodológicos desenvolvidos pelos escandinavistas estrangeiros. Nestes últimos exemplos, o melhor é o interessado estar inserido em uma rede de pesquisadores, como é o caso do NEVE, Núcleo de Estudos Vikings e Escandinavos. A troca de informações e materiais com pessoas mais experientes é uma necessidade vital da área, pois a pesquisa solitária pode causar muitos problemas, até mesmo interpretativos. Com o tempo, a visita e pesquisa na Europa também torna-se imperativa, pela qualidade das bibliotecas, arquivos, museus e sítios arqueológicos.
História em Rede — A propósito, do ponto de vista historiográfico, como se desenvolveram os estudos sobre os Vikings no Brasil e como eles se relacionam hoje à historiografia europeia?
Johnni Langer — Os primeiros estudos foram efetuados ainda no império, quando diversos historiadores e intelectuais brasileiros tomaram contato com pesquisas de dinamarqueses como Carl Christian Rafn e a Sociedade dos Antiquários do Norte, defendendo a ideia de que os vikings estiveram no Brasil antes de Cabral. As pesquisas foram retomadas plenamente a partir dos anos 1990, com Nova Escandinavística Brasileira, surgindo uma série de publicações, eventos acadêmicos e atividades que colocaram os nórdicos medievais como ponto de investigação. Neste momento, de 1997 a 2012, o estado do Rio de Janeiro manteve-se como ponto central de toda esta produção, especialmente na UFF, UERJ e UFRJ. Em 2010 foi criado o Núcleo de Estudos Vikings e Escandinavos, concentrando atualmente a maioria das pesquisas de pós graduação, publicações e contatos internacionais. Mais recentemente foram criados outros grupos de pesquisa. O contato com a historiografia europeia é variável, conforme a pesquisa e a época. Nos anos 1990 e 2000, houve uma nítida preponderância no Brasil de influência das pesquisas francesas e britânicas, da teoria do imaginário social e da História cultural. Mais recentemente, há uma convergência maior para referencias teóricos de dinamarqueses, finlandeses e islandeses, especialmente em abordagens de folclorística, cultura material, cultura visual e estudos comparativos.
História em Rede — Gostaria de agradecê-lo por aceitar conversar conosco e compartilhar um pouco de seus conhecimentos. Para finalizar, qual mensagem deixaria para um estudante de História que tenha interesse em pesquisar sobre os Vikings?
Johnni Langer — Eu que agradeço o espaço. O interessado no estudo sobre a Escandinávia da Era Viking deve ter consciência de que é uma área que ainda enfrenta muitos problemas no Brasil, especialmente pelo pouco apoio de diversos acadêmicos e universidades, pela falta de material traduzido em língua portuguesa e pelo escasso espaço em programas de pós graduação. Mas a existência de redes de contato, como mencionado antes, pode facilitar muito o relativo isolamento de alguns interessados pelo Brasil. Também a existência de vários materiais do NEVE, como o blog, a conta no Academia e a participação em eventos escandinavísticos regulares, como o CEVE podem ajudar muito.
Gostou? Quer se aprofundar sobre o tema? Então acompanhe alguns guias introdutórios elaborados pelo NEVE:
- Documentários sobre Vikings
- Como estudar os Vikings e a era Viking no Brasil
- Como estudar a Mitologia Nórdica no Brasil
- Livros sobre Vikings em português
- Livros sobre Mitos Nórdicos em português
- Livros sobre Religião Nórdica Pré-Cristã
- Literatura Nórdica Medieval
- Guia Crítico da Mitologia Escandinava
Luís Rafael Araújo Corrêa é professor do Colégio Pedro II e Doutor em História Social pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Autor de artigos e livros sobre História, como a obra Feitiço Caboclo: um índio mandingueiro condenado pela Inquisição.