Perigo que vem do mar: o ataque de Thomas Cavendish ao Espírito Santo Colonial
O início da colonização lusitana na América foi marcada por diversas dificuldades. Sem encontrar ouro ou metais preciosos em suas primeiras visitas ao Brasil, os portugueses demoraram a se interessar pela ocupação do território. Durante os primeiros trinta anos de colonização, os portugueses se limitaram a explorar as abundantes reservas de pau-brasil dispostas no litoral. As primeiras iniciativas em prol do povoamento só vieram após invasores estrangeiros ameaçarem a posse das terras garantidas aos portugueses pelo Tratado de Tordesilhas. A célebre colônia francesa no Rio de Janeiro, a França Antártica, talvez seja o melhor exemplo nesse sentido. No entanto, o incômodo causado por invasores estrangeiros foi uma realidade em diferentes regiões brasileiras no século XVI.
Em uma delas, o Espírito Santo, as incursões de piratas e corsários atormentou os colonos no primeiro século de colonização. Entre as décadas de 1550 e 1580, naus francesas causaram vários problemas aos moradores da capitania. Em diversas oportunidades, como lembrava o padre José de Anchieta, os índios das aldeias jesuíticas foram a única defesa do Espírito Santo. Apesar dos inconvenientes causados, os moradores da capitania foram sempre capazes de resistir.
Os perigos que vinham do mar, porém, não se limitaram aos piratas franceses. Em 1582, três embarcações inglesas foram vistas no Espírito Santo . Apesar de terem disparado contra a costa, elas não causaram estragos e logo desapareceram no horizonte. Um ano depois, o padre José de Anchieta informava ao rei que as embarcações comandadas pelo inglês Edward Fenton, que vinham de um assalto realizado em São Vicente, rondavam o Espírito Santo. Entretanto, não houve ataque, pois “as naus estavam muito destroçadas e os tempos foram contrários e bravos”. Mesmo assim, Anchieta relatou que os moradores estavam alarmados, “com medo dos ingleses, porque o deixaram dito que, para o ano que vem, viriam ali, com três ou quatro galeões armados”. Justamente por isso, pedia auxílio e proteção ao rei Felipe II. Não passou de uma ameaça. Mas o pior estava por vir.
No ano de 1592, sob a liderança do corsário Thomas Cavendish, os ingleses regressaram e promoveram aquele que foi o ataque mais duro ocorrido neste período. Após saquear São Vicente, Thomas Cavendish dirigiu-se ao Espírito Santo atraído pelas palavras de um português, o qual disse que em Vitória eles poderiam tomar, sem dificuldades, “muitos engenhos de açúcar e conseguir boa provisão de gado”. De acordo com o relato de Knivet, um grumete que fez parte desta expedição, o mencionado português havia sido recolhido pelos corsários após a sua embarcação ter sido apreendida em Cabo Frio. Animados pela oportunidade, os ingleses deixaram de lado o plano inicial de atacar o Rio de Janeiro e alcançaram o litoral em oito dias.
A chegada, porém, não foi como eles imaginaram. Cavendish e seus homens não conseguiram entrar com as suas embarcações na baía de Vitória, já que o canal que dava acesso não possuía “nem a metade da profundidade que o português” dissera. Knivet ressaltou que Cavendish, acreditando ter sido traído, ordenou que o luso fosse enforcado. Desanimado com o insucesso inicial, Thomas Cavendish achou melhor desistir da empreitada. Mas diante do desejo de ir a terra tomar a povoação que a maior parte das pessoas a bordo manifestou, o famoso corsário acabou cedendo e enviou cento e vinte homens em dois botes liderados pelo capitão Morgan e pelo tenente Royden .
O que era para ser um ataque surpresa acabou se tornando um verdadeiro desastre. Tendo avistado os ingleses na costa durante a véspera, os portugueses construíram secretamente dois fortins com o objetivo de garantir a defesa da vila. A capitania, que naquela altura era administrada por D. Luíza Grimaldi, viúva de Vasco Fernandes Coutinho, primeiro donatário da capitania, e que contava com os préstimos do capitão adjunto Miguel de Azeredo, resistiu. Valendo-se do apoio dos índios trazidos das aldeias administradas pelos padres jesuítas, os moradores impuseram grandes baixas aos invasores e forçaram uma retirada.
Knivet, que testemunhou a batalha, relatou que o primeiro bote chegou a tomar um dos pequenos fortes e “afugentaram os portugueses que lá estavam”. O outro bote, porém, não conseguiu ir além: tendo encalhado “num rochedo que ficava em frente ao forte”, a maior parte de seus ocupantes saltou para fora do bote, escorregando “com todas as armas no mar”. Ainda segundo o testemunho, muitos homens morreram afogados neste incidente. Em desvantagem, os ingleses não tiveram outra saída senão fugir.
Apesar da retirada, o número de mortes entre os ingleses foi significativo: Knivet observou que oitenta homens pereceram no ataque. Os que sobreviveram não apenas carregaram a derrota em suas costas, como também sentiram na pele a importância que os índios e suas flechas tiveram para a defesa portuguesa, já que dos quarenta que se salvaram, “não havia um sequer sem uma flecha ou duas em seu corpo, e muitos tinham cinco ou seis” .
A derrota dos ingleses no Espírito Santo deixou clara a consolidação da colonização na capitania. Tendo atraído a cobiça dos corsários em virtude dos atrativos econômicos da região, os moradores mobilizaram todos os recursos que dispunham para resistir. No entanto, mais do que isso, o ataque revelou também problemas e perigos que rondavam os colonos no Brasil Quinhentista.
Luís Rafael Araújo Corrêa é professor do Colégio Pedro II e Doutor em História Social pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Autor de artigos e livros sobre História, como a obra Feitiço Caboclo: um índio mandingueiro condenado pela Inquisição.